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O impacto
provocado pela leitura de Réquiem, o poema longo que o
alagoano Lêdo Ivo acaba de publicar, mostra que faltava algo
em sua obra capaz de elevá-la a um plano mais alto que o
patamar por ele já alcançado. Não é fácil dizer isso de um
poeta ativo e atuante aos 84 anos e que sempre esteve entre os
maiores de sua geração. Ele chegou a esta idade “inteiro”,
como notou Ivan Junqueira, seu colega de poesia e de Academia
Brasileira de Letras, na introdução à Poesia completa,
editada pela Topbooks em 2004. Agora ele já não tem um pedaço,
um tudo, que continua sendo “sempre nada / e coisa nenhuma”,
mas agora o é mais ainda, pois lhe faltava a dor, como intuiu
Mário de Andrade em carta ao jovem Lêdo.

A dor a que se referiu Mario se
apresenta no grave e sóbrio cenho e na expressão dolorida de
seu retrato desenhado por Gianguido Bonfanti, reproduzido
nesta edição. Nela os versos de Lêdo são intercalados com
pinturas de Gonçalo Ivo, seu filho, também autor da capa,
simples e branca, atravessada por fios que lembram uma pauta
musical ou uma rede elétrica povoada por andorinhas sinistras.
Sinistra foi a chegada da morte em sua vida - a bruta veio e
decompôs a dupla perfeita: Lêdo Ivo ficou sem Leda Ivo. Com
isso, sua poesia ficou maior, mas incompleta, cumprida a
terrível profecia do criador da Paulicéia Desvairada.
Desaparecida Leda, Lêdo tornou-se íntimo da indesejada das
gentes. Com Leda se foram a irreverência, o humor, a ironia e
o sarcasmo com que o poeta exibia as fragilidades da condição
humana, sem ocultar as do próprio estro. Sem Leda ficou o
convívio com o mistério da ausência.

A ressurreição pelo verso
– Em Réquiem Leda ressuscita em versos mais longos e
mais lentos, feitos com o esmero de hábito, mas agora com uma
severidade nova, provocando no leitor a sensação de que também
ele está sendo transportado no rio definitivo pela barca de
Caronte - que se afasta pelos manguezais do olhar fatigado do
poeta condenado à solidão. A experiência da ausência da
companheira não tira a graça do registro da conversa dos
adultos ouvida na infância do poeta em Alagoas e da
experiência amorosa do adolescente, em Recife, logo no
primeiro movimento do poema largo: “Como as letras gravadas a
fogo / na anca de um cavalo roubado por um cigano, ou / um
sinal de nascença / no quadril bem-amado”.
A referência jocosa aos maus
hábitos atribuídos aos andarilhos e a nostalgia das marcas na
pele da mulher marcam o diálogo permanente de Lêdo com a
amada, dolorido com a perda da musa da vida inteira, mas
também reconstruído numa poesia que difere da anterior, sem
recusá-la e sem repeti-la. O primeiro movimento revela a
descoberta fatal: “Na Barra de São Miguel, diante do mar, / só
agora aprendi: / o dia mais longo do homem / dura menos que um
relâmpago”. O ritmo que Lêdo imprime ao seu Réquiem, um
dos maiores poemas lavrados em português, não altera a
consciência do poeta que, antes da perda decisiva, tinha
vaticinado: “Toda eternidade termina em fumaça”. Introduz,
porém, um sentimento novo ao mudar o elemento sem alterar o
movimento: “A eternidade passa como o vento”.
A vida presente na morte
- O canto fúnebre se tece nas reminiscências da vida vivida:
as imagens desta memória reconstruída dão gravidade e força à
música dos movimentos do Réquiem. Mas, como sempre
ocorre na vida, a inexistência cobra o dízimo da profundidade
e da responsabilidade da existência. É ela a funda tristeza,
também mãe da beleza suprema, como lembrava Manuel Bandeira em
Madrigal. “Nada
sabemos, a não ser que há uma noite / pura e vazia à nossa
espera. Uma noite intocável / além do fogo e do gelo, e de
qualquer esperança”, reza. Poema para ser recitado em voz alta
e relido em silêncio – uma obra para ficar à cabeceira, porque
convoca à reflexão sobre a vida e a morte, a alegria e a
solidão, o amor e a dor, o desamparo essencial do ser humano.
Diante da morte de quem acompanhou a gestação de tantos de
seus versos, o poeta se prostra à evidência de que nada é
definitivamente glorioso ou trágico diante do mistério
inexorável da perda.
Subitamente só, Lêdo cresce ao
se curvar e se eleva ao se ajoelhar: “Vejo a morte escondida
num raio de sol: / a sobra do arrebol, ninho de nenhum pássaro
/ e a abolição do vôo sobre qualquer páramo”. Prova viva de
que a poesia que fica é aquela que sofre, mas também zomba do
próprio infortúnio, Lêdo vem reintroduzir a lírica de tantos
versos incontornáveis no papel de filósofo-infante a criar
uma nova épica, pondo-se no lugar da pedra de Drummond: “Que
eu esteja sempre no meio do caminho / e a minha viagem seja
inacabada”.
“Felizes os que partem e não regressam jamais”, lê-se numa
passagem do Réquiem. Não é exagero afirmar que feliz
será todo aquele que souber encontrar as modulações do coração
e do entendimento aptas a uma compreensão integral desse poema
de alta inquirição existencial: um mergulho para dentro da
alma, onde o poeta, infenso à autocompaixão, cuida apenas de
dar voz aos mais íntimos sentimentos que lhe provocam a
experiência da dor e da morte?

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