J. B. Lemos, jornalista, 82 anos,
viúvo, capixaba de São João do Muqui, morreu terça-feira 3
de fevereiro, às
10h30m, em Brasília, onde foi sepultado, quarta-feira 4 de
fevereiro, às 17 horas.
Começou no jornalismo em 1946, em Belo Horizonte, como
repórter do Jornal do Povo, pertencente ao Partido
Comunista Brasileiro. Depois, mudou-se para o interior de
São Paulo, onde atuou como goleiro no Radium, de
Mococa. Nos anos 1950, já na Capital paulista, chefiou o
Departamento de Jornalismo das Rádios Difusora e Tupi,
Emissoras Associadas, tendo sido um dos redatores-chefes do
Grande Jornal Falado Tupi, apresentado por Coripheu
de Azevedo Marques. Dirigiu o Departamento de Telejornalismo
da TV Excelsior, Canal 9. Surpreendido pelo golpe de 1964,
que levou as empresas de seu patrão, Mário Simonsen, à
falência, exilou-se no Chile, de onde voltou para trabalhar,
primeiro, como pauteiro, e, depois, como chefe de reportagem
da Folha de S. Paulo. Foi ainda chefe da redação das
Sucursais do Jornal do Brasil (do Rio) em São Paulo e
em Brasília e Editor do mesmo JB no Rio nos anos 1970 e
1980. Aposentou-se em seu último emprego, o de assessor de
imprensa do Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e
Tecnológicas (CNPq), em Brasília, onde viveu os últimos anos
de sua vida. . Filho do mestre-escola Alfredo e de dona
Júlia Lemos, membro de um clã de 15 irmãos, ele deixou seis
filhas - Sônia, Mirian, Tânia, Vera, Fernanda e Andrea -, 12
netos e uma bisneta.
José Nêumanne Pinto
Uma vez o radialista Alexandre Kadunc resolveu homenagear
nosso guru, meu pai profissional João Batista Lemos. Escrevi
João Batista porque ele não está mais aqui para repreender,
para reclamar. E corrigir: J. B. Qual o que, deve estar sim.
Nosso querido Lemos é espírita. Digo é, porque esta é a
forma de dizer que ele ainda está vivo, entre nós, nos
indicando o caminho a seguir, nos tomando pela mão e nos
ensinando lições de caridade, generosidade e solidariedade:
aulas de talento, garra, empenho e compreensão. Pois bem,
então Kadunc resolveu fazer uma crônica na Rádio
Bandeirantes em homenagem ao J. B., ou melhor ao Jomba, como
o apelidamos fraternamente, filialmente melhor dizendo. E a
primeira coisa que lhe veio à cabeça foi um velho sucesso
radiofônico. E lá soltou Kadunc o bolachão: “Encosta tua
cabecinha no meu ombro e chora”. Não pode haver imagem mais
precisa, recordação mais justa, lembrança mais exata. Lemos
- este sobrenome definitivo e definidor, que denuncia o
leitor acima do escritor, o interlocutor mais que o chefe
talentoso e generoso, e mais que tudo o professor – era o
ombro de todos, o lenço de enxugar todas as lágrimas, o poço
profundo da sabedoria onde íamos lavar nossas mágoas e
saíamos enxaguados com seus conhecimentos e de suas
vivências. Lemos foi nosso mestre, mas, antes disso, foi
nosso consolador perpétuo, o dono da palavra amiga que
resolvia os impasses mais doidos e doídos da alma de seus
discípulos. Para nos consolar, chorava conosco. Para se
alegrar, ria de nós rindo conosco. É meu padrão de chefe de
equipe: reconhecia o talento de cada um e não cobrava de
ninguém o que não estivesse a sua altura. E sempre ele se
colocava à altura do mais talentoso e do mais desprovido de
graça e engenho. Mas o brilhante formador e chefe de equipes
era, mais que tudo, o homem-equipe. Tudo nele era ombro, mas
também ouvido. A boca servia para o golpe preciso, o
empurrão decisivo: “Segue em frente, filho”. “Te vira,
rapaz”. “Você saberá o que fazer”. Lemos com ele, ele de
luz. Ele-luz. Era nosso árbitro de elegância, nosso Petrônio
moderno. Lembro-me de suas camisas de linhoimpecavelmente passadas. Do bigode aparado, cheiroso,
cofiado, confiável. A voz sempre no registro certo:
suficientemente alta para ser ouvida, suficientemente baixa
para não ser confundida com irritação. O vinco das calças
sempre no lugar certo. Nunca uma mulher – senhora, é claro –
ouviu um palavrão dele. Galanteios, é claro, eram proferidos
em profusão. Lemos foi o amigo mais galante que conheci. Ao
lado dele, as feias se embelezavam e as bonitas ficavam mais
acessíveis, mais perto de nós, mais ao rés do chão. Quando
nos conhecemos, eu menino, seu filho homem que não
sobreviveu, mandou que eu lesse os textos de Gay Talese
sobre os construtores de pontes em Nova York. Ele sabia o
que indicava – ele mesmo um construtor de pontes. Neste 3 de
fevereiro, quando ele foi ao encontro de Chico Xavier no
céu, abri uma mensagem de internet com fotos dos personagens
do grande jornalista e percebi que Lemos passou a vida
inteira suspenso naquelas vigas, deitado sobre abismos.
Agora foi pro céu para ajudar aqueles que não pode socorrer
em vida. Lemos Nightingale não iria embora assim sem mais,
deixando-nos ao desamparo nesta hora dolorosa. Que esteja
agora no lugar que sempre mereceu: à mão direita de
Deus-pai. Deus conserve ao Seu lado o filho do mestre-escola
Alfredo e de dona Júlia, o irmão de 14, a vítima permanente
da bursite por conta dos jogos disputados no gol pelo Radium
de Mococa, o pai amantíssimo e amado de Sônia, Mirian,
Tânia, Vera, Fernanda e Andrea e de todos nós, o avô de 12 e
bisavô de uma, o corintiano apaixonado, o devorador de
lasanhas, o fumante incorrigível e elegantíssimo.
José Nêumanne Pinto, jornalista graças a Lemos.
Redação da Folha de S. Paulo, nos Campos
Elíseos: de pé da esquerda para a direita: Nêumanne, Adilson
Laranjeira, Waltinho, Walter Silva Picapau, Dailor Varela e
Carlos Eduardo. JB Lemos está sentado com Rodrigo no colo.
As crianças são filhas de Walter.
Depoimento do
Picapau sobre Lemos:
Foi o futebol que me
apresentou J. Batista Lemos.
Eu trabalhava na fábrica de calçados Irmãos
Solimeno, na Mooca e, convidado por um colega que tinha o
rosto pintadinho, chamado Toninho, fui assistir, num
domingo, a uma partida do Corinthians de Vila Monumento.
Fiquei impressionado com o talento do goleiro do segundo
quadro, que não era outro senão J. Batista Lemos,
Seu fã, virei logo seu amigo, a ponto de
trocarmos os envelopes de pagamento, pois a situação não era
boa e tínhamos filhas a criar.
Empreguei-me na organização Victor Costa como
divulgador, juntamente com colegas como Geraldo Tassinari,
Ewaldo de Almeida Pinto, Geraldo Vieira, Alexandre Kadunk,
Humberto de Campos Filho. Estes e outros também trabalhavam
com o chefe de reportagem, nosso Jomba querido.
Não dá pra ficar apenas triste com o seu
desaparecimento. É muito mais do que isso. É uma dor que não
se explica, embora a gente saiba que ela um dia vem.
Que Deus dê a sua alma o descanso merecido.
Lembro-me, ainda, que nos anos de chumbo
ele ficou preso no DOPS na rua General Osório e eu, na maior
cara de pau, levava comida do Gigetto todos os dias, porque
os guardas me conheciam como repórter de campo. O mesmo se
deu com Plínio Marcos, de quem também morro de saudade. Que
Deus os tenha.
Walter Silva, o Picapau
(por e-mail)
1982 - Jornal do Brasil: José Nêumanne entrega o
diploma com o desenho da foca ordenhando a baleia a Fernanda
Torres, com o repórter Enéas Macedo Filho e JB Lemos ao fundo.
Quando a jornalista
Fernanda A. Torres (hoje dona de uma empresa de assessoria
de imprensa) leu nos jornais de São Paulo a notícia do
falecimento de JB Lemos, encaminhou para José Nêumanne a
cópia de uma foto, feita em 1982, com o registro do momento
em que ela foi diplomada como "foca" (repórter iniciante),
após cumprir pauta falsa sobre uma campanha oficial para
estimular o consumo de leite de baleia. Para a reportagem
falsa de iniciação, Walter Santos, cunhado de Lemos, compôs
e gravou no Nossoestúdio uma marchinha de carnaval, com
letra do então chefe da redação da Sucursal do Jornal do
Brasil em São Paulo.
Não se conhece o destino da fita, mas, graças à memória de
Fernanda, eis a letra de Lemos para o fake jingle:
Marchinha da diplomação da Foca
"Já se foi o tempo da aveia / Prá nutrir agora só o leite da
baleia (bis)
Alegria! nordestinos, africanos, indianos, beduínos/
Pescadores! içai as bujarronas/
Mesmo que em pleno mar/
Aí vem a baleia do Jonas/Para todos nós salvar (bis)"
Homenagem póstuma a J.B.
Lemos. São Paulo, 3
(terça-feira) de fevereiro de 2009
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