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J.B. LEMOS - *21.06.1925 | +03.02.2009

J. B. Lemos, jornalista, 82 anos, viúvo, capixaba de São João do Muqui, morreu terça-feira 3 de fevereiro, às 10h30m, em Brasília, onde foi sepultado, quarta-feira 4 de fevereiro, às 17 horas. Começou no jornalismo em 1946, em Belo Horizonte, como repórter do Jornal do Povo, pertencente ao Partido Comunista Brasileiro. Depois, mudou-se para o interior de São Paulo, onde atuou como goleiro no Radium, de Mococa. Nos anos 1950, já na Capital paulista, chefiou o Departamento de Jornalismo das Rádios Difusora e Tupi, Emissoras Associadas, tendo sido um dos redatores-chefes do Grande Jornal Falado Tupi, apresentado por Coripheu de Azevedo Marques. Dirigiu o Departamento de Telejornalismo da TV Excelsior, Canal 9. Surpreendido pelo golpe de 1964, que levou as empresas de seu patrão, Mário Simonsen, à falência, exilou-se no Chile, de onde voltou para trabalhar, primeiro, como pauteiro, e, depois, como chefe de reportagem da Folha de S. Paulo. Foi ainda chefe da redação das Sucursais do Jornal do Brasil (do Rio) em São Paulo e em Brasília e Editor do mesmo JB no Rio nos anos 1970 e 1980. Aposentou-se em seu último emprego, o de assessor de imprensa do Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Tecnológicas (CNPq), em Brasília, onde viveu os últimos anos de sua vida. . Filho do mestre-escola Alfredo e de dona Júlia Lemos, membro de um clã de 15 irmãos, ele deixou seis filhas - Sônia, Mirian, Tânia, Vera, Fernanda e Andrea -, 12 netos e uma bisneta.

 

 
 

 
José Nêumanne Pinto
 
 

  Foto atribuída a Charles C Ebbets 1930 

             

 

 

 

         Uma vez o radialista Alexandre Kadunc resolveu homenagear nosso guru, meu pai profissional João Batista Lemos. Escrevi João Batista porque ele não está mais aqui para repreender, para reclamar. E corrigir: J. B. Qual o que, deve estar sim. Nosso querido Lemos é espírita. Digo é, porque esta é a forma de dizer que ele ainda está vivo, entre nós, nos indicando o caminho a seguir, nos tomando pela mão e nos ensinando lições de caridade, generosidade e solidariedade: aulas de talento, garra, empenho e compreensão. Pois bem, então Kadunc resolveu fazer uma crônica na Rádio Bandeirantes em homenagem ao J. B., ou melhor ao Jomba, como o apelidamos fraternamente, filialmente melhor dizendo. E a primeira coisa que lhe veio à cabeça foi um velho sucesso radiofônico. E lá soltou Kadunc o bolachão: “Encosta tua cabecinha no meu ombro e chora”. Não pode haver imagem mais precisa, recordação mais justa, lembrança mais exata. Lemos - este sobrenome definitivo e definidor, que denuncia o leitor acima do escritor, o interlocutor mais que o chefe talentoso e generoso, e mais que tudo o professor – era o ombro de todos, o lenço de enxugar todas as lágrimas, o poço profundo da sabedoria onde íamos lavar nossas mágoas e saíamos enxaguados com seus conhecimentos e de suas vivências. Lemos foi nosso mestre, mas, antes disso, foi nosso consolador perpétuo, o dono da palavra amiga que resolvia os impasses mais doidos e doídos da alma de seus discípulos. Para nos consolar, chorava conosco. Para se alegrar, ria de nós rindo conosco. É meu padrão de chefe de equipe: reconhecia o talento de cada um e não cobrava de ninguém o que não estivesse a sua altura. E sempre ele se colocava à altura do mais talentoso e do mais desprovido de graça e engenho. Mas o brilhante formador e chefe de equipes era, mais que tudo, o homem-equipe. Tudo nele era ombro, mas também ouvido. A boca servia para o golpe preciso, o empurrão decisivo: “Segue em frente, filho”. “Te vira, rapaz”. “Você saberá o que fazer”. Lemos com ele, ele de luz. Ele-luz. Era nosso árbitro de elegância, nosso Petrônio moderno. Lembro-me de suas camisas de linho impecavelmente passadas. Do bigode aparado, cheiroso, cofiado, confiável. A voz sempre no registro certo: suficientemente alta para ser ouvida, suficientemente baixa para não ser confundida com irritação. O vinco das calçasNêumanne e Lemos, FOLHA DE S PAULO, 1970 sempre no lugar certo. Nunca uma mulher – senhora, é claro – ouviu um palavrão dele. Galanteios, é claro, eram proferidos em profusão. Lemos foi o amigo mais galante que conheci. Ao lado dele, as feias se embelezavam e as bonitas ficavam mais acessíveis, mais perto de nós, mais ao rés do chão. Quando nos conhecemos, eu menino, seu filho homem que não sobreviveu, mandou que eu lesse os textos de Gay Talese sobre os construtores de pontes em Nova York. Ele sabia o que indicava – ele mesmo um construtor de pontes. Neste 3 de fevereiro, quando ele foi ao encontro de Chico Xavier no céu, abri uma mensagem de internet com fotos dos personagens do grande jornalista e percebi que Lemos passou a vida inteira suspenso naquelas vigas, deitado sobre abismos. Agora foi pro céu para ajudar aqueles que não pode socorrer em vida. Lemos Nightingale não iria embora assim sem mais, deixando-nos ao desamparo nesta hora dolorosa. Que esteja agora no lugar que sempre mereceu: à mão direita de Deus-pai. Deus conserve ao Seu lado o filho do mestre-escola Alfredo e de dona Júlia, o irmão de 14, a vítima permanente da bursite por conta dos jogos disputados no gol pelo Radium de Mococa, o pai amantíssimo e amado de Sônia, Mirian, Tânia, Vera, Fernanda e Andrea e de todos nós, o avô de 12 e bisavô de uma, o corintiano apaixonado, o devorador de lasanhas, o fumante incorrigível e elegantíssimo.

          José Nêumanne Pinto, jornalista graças a Lemos.

 

 
 


Redação da Folha de S. Paulo, nos Campos Elíseos: de pé da esquerda para a direita: Nêumanne, Adilson Laranjeira, Waltinho, Walter Silva Picapau, Dailor Varela e Carlos Eduardo. JB Lemos está sentado com Rodrigo no colo. As crianças são filhas de Walter.

 

Depoimento do Picapau sobre Lemos:

       Foi o futebol que me apresentou J. Batista Lemos.
       Eu trabalhava na fábrica de calçados Irmãos Solimeno, na Mooca e, convidado por um colega que tinha o rosto pintadinho, chamado Toninho, fui assistir, num domingo, a uma partida do Corinthians de Vila Monumento. Fiquei impressionado com o talento do goleiro do segundo quadro, que não era outro senão J. Batista Lemos,
      Seu fã, virei logo seu amigo, a ponto de trocarmos os envelopes de pagamento, pois a situação não era boa e tínhamos filhas a criar.
      Empreguei-me na organização Victor Costa como divulgador, juntamente com colegas como Geraldo Tassinari, Ewaldo de Almeida Pinto, Geraldo Vieira, Alexandre Kadunk, Humberto de Campos Filho. Estes e outros também trabalhavam com o chefe de reportagem, nosso Jomba querido.
       Não dá pra ficar apenas triste com o seu desaparecimento. É muito mais do que isso. É uma dor que não se explica, embora a gente saiba que ela um dia vem.
       Que Deus dê a sua alma o descanso merecido.
       Lembro-me, ainda, que nos anos de chumbo ele ficou preso no DOPS na rua General Osório e eu, na maior cara de pau, levava comida do Gigetto todos os dias, porque os guardas me conheciam como repórter de campo. O mesmo se deu com Plínio Marcos, de quem também morro de saudade. Que Deus os tenha.



Walter Silva, o Picapau

(por e-mail)

 

1982 - Jornal do Brasil:  José Nêumanne entrega o diploma com o desenho da foca ordenhando a baleia a Fernanda Torres, com o repórter Enéas Macedo Filho e JB Lemos ao fundo.

 

Quando a jornalista Fernanda A. Torres (hoje dona de uma empresa de assessoria de imprensa) leu nos jornais de São Paulo a notícia do falecimento de JB Lemos, encaminhou para José Nêumanne a cópia de uma foto, feita em 1982, com o registro do momento em que ela foi diplomada como "foca" (repórter iniciante), após cumprir pauta falsa sobre uma campanha oficial para estimular o consumo de leite de baleia. Para a reportagem falsa de iniciação, Walter Santos, cunhado de Lemos, compôs e gravou no Nossoestúdio uma marchinha de carnaval, com letra do então chefe da redação da Sucursal do Jornal do Brasil em São Paulo.
Não se conhece o destino da fita, mas, graças à memória de Fernanda, eis a letra de Lemos para o fake jingle:
 

Marchinha da diplomação da Foca

"Já se foi o tempo da aveia / Prá nutrir agora só o leite da baleia (bis)

Alegria! nordestinos, africanos, indianos, beduínos/
Pescadores! içai as bujarronas/
Mesmo que em pleno mar/

Aí vem a baleia do Jonas/Para todos nós salvar (bis)"
 

Homenagem póstuma a J.B. Lemos. São Paulo, 3 (terça-feira) de fevereiro de 2009

 

 

 

 

 

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