|


José Nêumanne
A lembrança mais nítida de minha infância no sertão é que os
dias eram extremamente luminosos e as noites recebiam uma
espessa cobertura de breu. O sol tinha uma luminosidade
ofuscante num céu cujo azul pálido, desmaiado, quase
transparente, nunca vi reproduzido em parte nenhuma do mundo.
Era mais fácil conviver com o calor abrasador e a secura do ar
que com aquele brilho humilhante. De noite, quando eu era
menino, a cidade ainda não tinha eletricidade de hidrelétrica, a
luz de Paulo Afonso, como se dizia. Foi uma grande conquista,
talvez a maior de todas, a ventura de girar o interruptor e ver
a lâmpada acender, mas ainda mais ter uma geladeira, uma vitrola
ou um simples rádio elétrico funcionando a qualquer hora. Até
então, tínhamos de nos contentar com o “motor da luz” - um
gerador a Diesel que o maquinista Cabrinha acionava às 18 horas
e desligava às21. O desligamento era precedido de três sinais:
um apagão rápido, depois dois, três, antes de, enfim, vir a
treva.
|
|
 |
|
José de Anchieta Pinto,
com o motorista Zé Campina, exibindo orgulhoso o
"jandaia", vulgo "gemecê", caminhão Chevrolet 1958 |
|
|
Meu pai, Anchieta Pinto, era caminhoneiro e me lembro bem do
orgulho com que se exibia ao se deixar fotografar na frente de
um Chevrolet (dizia-se “gemecê”)
, que ele chamava de Jandaia. Viajava muito para o “Sul” - Rio e
São Paulo - e mamãe, Mundica Ferreira Pinto, ficava sozinha
conosco: éramos quatro, depois cinco, depois seis, sete, afinal.
Assim que Cabrinha acionava o motor, o pároco, o cônego Antônio
Anacleto, também ligava o alto-falante da matriz de Jesus,
Maria, José. A característica era a Ave Maria, de Gounod. Em
seguida, com sua voz característica e gozada, o vigário recitava
um trecho em homenagem à Virgem Maria. Afinal, era a Hora do
Ângelus. Mas era também a hora do acerto de contas dele com a
comunidade. Era algo mais ou menos assim: “Seis horas, hora do
Ângelus, hora da Ave Maria, hora de todos nós rezarmos contritos
a Deus e pedirmos a intercessão da mãe de Jesus Cristo, Nosso
Senhor, para nos redimir de nossos pecados. Hora de você,
Cabrinha, cabra safado, vir consertar a difusora da igreja, pois
eu já lhe paguei pelo serviço que você não fez”
Na verdade, Cabrinha era apenas o
maquinista: ligava e desligava o motor. Quem cuidava dele para
evitar os blecautes, dos quais, confesso, não me lembro, era o
gênio local da mecânica, Zéu Fernandes, um mago dos motores e
proprietário do único automóvel do qual me lembro bem àquela
época: a “fobica” de Zéu. Nele fiz meus primeiros passeios de
carro na estrada poeirenta e esburacada ligando a Fazenda Rio do
Peixe, onde nasci, e a cidadezinha de Belém do Arrojado, vulgo
Uiraúna, a légua e meia, nove quilômetros de distância, como
minha mãe registrou no “Álbum do Bebê”. |
|
 |
|
Zéu Fernandes, o mago da
mecânica e dono do primeiro automóvel de Uiraúna, a "fobica",
posa ao lado do motor da luz, que o maquinista Cabrinha
acionava diariamente em Uiraúna |
|
|
Na primeira infância, já morando na “rua”, como se dizia, quando
o eletricista cobrado pelo padre desligava a luz e a treva
descia, com meu pai viajando, íamos tomar a fresca na calçada da
Rua Nova e mamãe, que tinha estudado na Escola Normal de
Cajazeiras, dizia de cor versos de Castro Alves. Até hoje posso
citar de cor trechos do Navio Negreiro: “existe um povo que a
bandeira empresta pra cobrir tanta infâmia e cobardia e deixa-a
transformar-se nesta festa em manto impuro de bacante fria. Meu
Deus, meu Deus! Mas que bandeira é esta que impudente na gávea
tripudia? Auriverde pendão de minha terra, que a brisa do Brasil
beija e balança, estandarte que a luz do sol encerra e as
promessas divinas da esperança, tu, que após a guerra foste
hasteada dos heróis na lança, antes te houvessem roto na batalha
que servires a um povo de mortalha”. Lindo, não? E que ritmo
maravilhoso! Atribuo meu ouvido de tuberculoso para a palavra a
essas noites escuras em que a brisa não vinha, mas o calor era
refrescado pelos alíseos
do mar da Bahia nos ritmos dos versos de Antônio Frederico, que
morreu tão moço, coitados de nós, que perdemos tanta poesia!
Considero “que a brisa do Brasil beija e balança” o mais lindo
verso da língua portuguesa, que me perdoem Camões e Pessoa! E
até hoje acho que o baiano foi o maior poeta brasileiro de todos
os tempos. Lembro-me também que mamãe dizia O livro e a América
– “criado pelas grandezas, pra crescer, criar subir” etc. Não há
espaço para citar o poema todo.Também teria de recorrer ao
livro: não me lembro dele como do Navio Negreiro. Mas me recordo
ainda bem que achava muito engraçado quando ela recitava: “lá
brada César morrendo”. E a cena trágica do assassínio do
imperador romano lembrada pelo poeta era substituída na minha
memória infantil pelo louco Labrada, que era fanático por
automóveis e andava a pé como se estivesse dirigindo um,
reproduzindo com a boca, a língua e a garganta os ruídos do
motor e torcendo os braços como se dirigisse ou passasse marcha.
Labrada era o contínuo do cabaré de Cirilo Félix, que tocava na
sua casa de putas um fole de oito baixos comandando um conjunto
tosco intitulado Cirilo Félix e seus cabras da peste, uma
evidente homenagem ao maior sanfoneiro de oito baixos da época,
Abdias, líder de Abdias e seus cabras da peste. Sabia que uma
puta se chamava Escurinha e era negra, claro. Mas esse não era
um assunto para crianças. |
|
 |
|
Os sete filhos de Mundica
Ferreira Pinto: José Nairton, José Noaldo, José Neudson,
Nicéa Mary, Mundica Ferreira Pinto, José Nilton, José de
Anchieta Filho e José Nêumanne |
|
|
Ainda era um menino bobo quando papai resolveu aventurar-se nos
negócios e abriu uma sorveteria num ponto na Rua do Comércio,
defronte ao mercado. Era uma operação comercial obviamente
ruinosa, pois papai nunca tinha feito um picolé na vida e não
havia eletricidade permanente. Ele teve de importar um
sorveteiro de Cajazeiras, Ezequias, e montar
um conjunto de gerador e dínamo a Diesel para manter a
consistência e a temperatura dos sorvetes. Meu tio Raimundo,
médico formado em Recife, sugeriu o nome em homenagem a um lugar
muito pouco frio, Alabama, o Estado sulista americano, e o nome
pegou: Sorveteria Alabama. Mais do que dos sorvetes de Ezequias,
que eram bons, mas não havia uma variação muito grande de
sabores, talvez pela escassez de oferta de matéria-prima nas
feiras de domingo, lembro-me da “radiola”, uma vitrola enorme
que ficava no meio do salão. Miltinho cantava “cara de
palhaço, pinta de palhaço” e eu achava engraçadíssimo porque
“pinta”, para nós, era o órgão genital masculino, vulgo pênis.
Havia também um long playing que o magnífico pianista e
intérprete americano Nat King Cole gravou para o público
latino-americano, cantando em espanhol e até em português. É um
disco maravilhoso e desde sempre aquele negro simpático com
chapeuzinho é meu cantor favorito. |
|
 |
|
Campina Grande, Paraíba. Foto
de Ubiracy Vieira Veloso |
|
|
Já estava em plena adolescência
quando foi adicionado ao repertório da sorveteria (que, na era
de Paulo Afonso, sob a direção de Nozinho, passou a se chamar Sorvelanches Canaã) o LP O inimitável, de Roberto
Carlos – “de que vale tudo isso se você não está aqui?” Mas aí o
negócio de sorvetes de meu pai já tinha derretido e eu me mudado
para Campina Grande para estudar no Instituto Redentorista
Santos Anjos. A inocência da infâ ncia ficou boiando no ar na
companhia das mensagens sonoras que Peta lia antes dos sucessos
musicais que tocava até o motor da luz ser desligado.
|
|