Meu pai está no céu 
e me mandou o dom da vida 
pousar do beijo de um colibri. 
Quando a semente caiu, 
o ventre virgem de minha mãe a estreitou. 
Debaixo do regaço da terra, 
me nutri da lava dos vulcões, 
bebi a água limpa dos lençóis 
e suguei a força fétida 
da matéria apodrecida. 
Cresci no seio da relva, 
vesti as cascas do tempo. 
Soprei ventos primevos, 
trazidos dos campos, 
onde o trigo fenece. 
Destilei o perfume das flores 
e o sabor dos frutos da estação. 
Refresquei com o orvalho de meu pranto 
o asfalto que me queimava os pés. 
À sombra de minha presença, 
abriguei carícias alheias 
e em meus membros 
espalhei ninhos e espinhos. 
Cantei canções ancestrais 
nas línguas mortas das aves, 
que não me deixam calar. 
Fixaram com cravos minhas pernas 
neste bosque de piche e aço. 
Agora, eis-me aqui, de novo, 
disposto ao perdão, 
pois para isso fui pregado. 
Abro bem os braços 
e deixo o peito à vista: 
meu velho coração vegetal 
só carece de um olhar caridoso 
para pulsar sua compaixão. 
Olha bem pra mim, 
transeunte urbano 
de minha agonia! 
Enquanto me encontrares, 
teu pulmão de cristal 
não vai se estilhaçar.


 

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