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José Nêumanne
O romance do vaqueiro voador surpreende e emociona.
Surpreende pela coragem que Manfredo Caldas demonstrou de nunca
lhe definir um gênero. Parte de um poema – homônimo, de João
Bosco Bezerra Bonfim – e de um documentário – Brasília
segundo Feldman, de Vladimir Carvalho – para construir um
filme que registra e relata, revolve e denuncia, relembra e
reconstrói. Ao se mostrar no filme, como Alfred Hitchock gostava
de fazer, para deixar sua marca registrada, o diretor não se
exibe: se expõe. É o mesmo raciocínio que justifica as
inovadoras tomadas em que o protagonista, Luiz Carlos
Vasconcelos, é filmado lendo o roteiro, decorando o texto ou
simplesmente andando pela paisagem de Brasília. Surpreende
também porque o filme documenta de maneira original a
transformação do cenário inóspito do cerrado na cidade
modernista, a cena urbana dos automóveis, a cruz de Lúcio Costa
se tornando o eixo monumental, o concreto se armando no vazio...
Mais que documentário, contudo, o filme cria um novo gênero, o
documento, pois mostra ao espectador o registro de nascimento de
um sonho, uma profecia vaga que virou marco do modernismo
arquitetônico mundial. Brasília, a obra-mestra de Oscar
Niemeyer, a arquitetura modernista brasileira feita carne, foi
construída de aço, cimento e argamassa, amalgamada com o suor
humano. Mas é também um desvario de sangue, uma pirâmide de
cadáveres, seres humanos anônimos abatidos pelas metralhadoras
da GEB ou pelas condições desumanas de trabalho nos perfis dos
edifícios – um pesadelo para concretizar um sonho de cascalho,
asfalto e cimento. Mas um pesadelo de anônimos, pessoas simples
que trocaram a desolação de sua pobreza de origem para ganhar a
vida moldando o delírio do faraó. A democracia de 1946 também
escondeu esqueletos nos armários: eles caíram dos andaimes ou
foram abatidos à bala e depois enterrados na vala comum do
esquecimento. Brasília é uma realidade inescapável, um erro
terrível, do qual jamais poderemos nos redimir. E ela nos
permite meditar sobre a transformação do homem comum, o vaqueiro
aboiador, na massa disforme de carne dilacerada e ossos
triturados, vítima do progresso e da indiferença, da hipocrisia
e dos ledos enganos com que se tem construído e destruído nossa
civilização de alicerces que viram ruínas antes de exercerem sua
função. É aí que o filme comove: a imagem do vaqueiro se jogando
ao solo para puxar o rabo da rês e derrubá-la é recorrente na
nossa infância - Manfredo, Luiz Carlos, o motorista de táxi que
os transporta e eu viemos da mesma raiz, bebemos água salobra da
mesma cacimba. Nosso amigo comum Marcus Vinicius, autor da
trilha, nasceu em Recife, mas é um paraibano de adoção - como
poucos. Desta água todos sempre beberemos. E Manfredo teve
coragem de mostrá-la como é: turva e revolta, traiçoeira e
insalubre. Ao contrário da miragem do vaqueiro, que não derruba
a rês, mas se espatifa no solo do Planalto Central do País, os
realizadores desta obra compartilharam a ousadia de denunciar e
refletir, com respeito e despeito, decisão e precisão. Terminado
o filme, remanesce no ar a dúvida atroz: quando é que o vaqueiro
morre - é quando despe o gibão e sobe no andaime para aboiar sua
desarmonia com a nova paisagem ou é quando voa sem asas e cai no
chão, desprotegido do céu? A poesia deixa a questão no ar, seco
no sertão ou no cerrado, a atmosfera que desmancha pessoas para
montar edifícios, a cidade, um novo horizonte. Ouvir o poema na
voz de Luiz Carlos Vasconcelos, e não só nela, evoca dois
momentos, díspares só na aparência do cinema, arte universal por
excelência: a narração por Paulo Pontes do poema de Jomar Morais
Souto em O país de São Saruê, de Vladimir Carvalho, e as
repetições do texto de Alain Robbe-Grillet por Alain Resnais em
O ano passado em Marienbad. Como o sertão do Rio do Peixe
e o hotel europeu, o burgo de curvas e luzes é um mistério, o
cemitério de nossas vãs ilusões, o enterro de nossa última
quimera, acompanhado apenas pela solidão inseparável, esta
pantera.

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