Seja bem-vindo à Estação Nêumanne!

 
José Nêumanne
 

   

 

               Está certo que há um bom motivo para Manuel Batista ter batizado este livro de Sementes no Outono. O autor não é chegado a camuflagens, não se perde em ademanes, não se satisfaz com a perfumaria das cortes: ele é do tipo estamos aí, pão pão queijo queijo, comigo não, violão! O que tem a dizer diz. Se tiver de calar, cala, mas não é adepto dos malabarismos diplomáticos nem dos subterfúgios performáticos. Então, o título quer dizer o seguinte: não sou mais nenhum garoto, mas estou aí produzindo, contribuindo, lutando, enfrentando a vida, quer encarar? Então, não vou ser eu, por mais brigas que também goste de comprar, que vou mudar o espírito da performance (palavra paroxítona do jeito que o velho Houaiss propugnava, queria que fosse, garantia que era) desejada por quem dedicou anos de labuta intelectual para pregar, educar, escrever, administrar, dirigir, advogar, fundar etc. Manuel Batista foi padre, não o é mais, mas continua um semeador, daqueles que sai por aí esparramando sementes em qualquer estação, em vez de espargir água benta. E não se dispõe a desperdiçar o latim duramente aprendido no seminário nas batalhas inglórias contra o pensamento canônico padronizado: inicia esta coletânea de textos semeados em todas as estações (nossas), mas a ser colhidos no outono (dele), a terçar armas contra a falácia organizada e celebrada da “pedagogia do oprimido”. Num estilo combativo e erudito, rude e escorreito, o soldado do Evangelho recorre à lógica plana que os doutores da Igreja beberam em Aristóteles para reduzir a pó as propostas de submeter a pedagogia à dialética que Marx foi buscar em Hegel. Diz ele que não quis criticar um dos mais célebres proponentes, Moacir Gadotti. Vai ver não quis mesmo! Só quis fazer um estudo comparativo, como explicou. E o leitor que tire suas conclusões. Sutil ardil: ele tratou o educador sobre o qual escreveu como este tratou a pedagogia. Minha avó Nanita gostava de dizer que “chumbo trocado não dói”. Vai ver a avó de Manuel Batista lhe ensinou o mesmo. Mas eu bem que não queria estar na pele do Gadotti. Eu, hein?!
            Melhor sorte que Gadotti tiveram os brejeiros com os quais ele conviveu na infância lá pelas bandas de Solânea, Remígio e sua Serraria natal. Dizem que a memória se estratifica, de forma que, à medida que envelhecemos, nos lembramos mais do passado distante que do próximo. Na verdade, a memória é um exercício de criação. Ninguém se lembra do que ocorreu: todos nos lembramos do que pensamos que ocorreu ou do que gostaríamos que tivesse ocorrido. A memória não é o registro de fatos históricos (memorialista é uma coisa; historiador, outra), mas a leitura presente de uma ocorrência pretérita. Nós não nos lembramos, mas relatamos lembranças: não somos repórteres fiéis do que passou, mas artífices imaginativos do que passamos. Este é o Manuel Batista que voltou ao Brejo de origem para resgatar lá, em pleno outono, a primavera infantil. Se ousara eu sugerir título alternativo a esta coletânea, ele só poderia ser algo do gênero “Aventuras do conhecimento e da camaradagem”.
             No capítulo do conhecimento insere-se o texto comparativo em que o autor delatou a origem marxista da “antipedagogia” de Gadotti. O da camaradagem, como sói ocorrer em semeaduras outonais, terá de ser mais colorido, mais variado, mais vivo – reforçando aqui a imagem usada no título adotado para evitar incorrer na ira do prefaciado, Deus me livre e guarde! Memória é com Manuel Batista. História, com Wolfhagon Costa, o primeiro brejeiro a comparecer à galeria dos camaradas que não valem pelo que fizeram e fazem, mas pelo que são. Assim, aliás, como o autor definiu, em outro texto aqui coletado, o político Reinhold Stephanes, brejeiro de outro brejo, o húmus do vale dos rios paranaenses, entre os quais o Iguaçu, cujas águas desabam num fragor titânico lá pelos lados da Argentina e do Paraguai. No discurso em que discorreu sobre sua Serraria centenária, o padre, o advogado, o educador, o jornalista, o acadêmico se disse, sobretudo, “peregrino do passado”. É o que é no tal discurso e ao longo de todos os outros que selecionou para este livro - as saudações aos confrades da Academia Paraibana de Letras na entrada deles na Casa - e no louvor ao crítico, não por acaso também acadêmico, que veio de outras plagas, mas do mesmo interior paraibano, Hildeberto Barbosa Filho, irmão do forrozeiro Dudé das Aroeiras, ambos ex-seminaristas, meus contemporâneos no Instituto Redentorista Santos Anjos, em Bodocongó, Campina Grande, sob a batuta do baiano Pitiá, que da Pietá só se aproximava pelas letras das palavras. Sua definição de Hildeberto – “o melhor crítico literário na cena paraibana atual” – fala mais de quem emitiu o conceito que de quem o mereceu. Manuel Batista é assim e seu livro espelha esta característica - a do camarada franco, desabrido, sem meios termos, sem meias palavras. Não se leia a frase como uma lisonja, pois é um compromisso, uma responsabilidade que o homenageado passou a ter com quem o homenageou, e vice-versa. O desafio é negar a afirmação atribuída a outros (vagamente indefinidos) de que “quem não sabe fazer nada critica”. Sempre assim na base do uma no cravo e outra na ferradura, o autor foi distribuindo cumprimentos e cobranças entre os camaradas: quando pôs Osterne Carneiro de braços dados com Tales de Mileto à beira de um curso de água; quando citou extensamente Tomás Antônio Gonzaga na saudação ao companheiro de Ipê e de APL José Loureiro Lopes; ou ainda ao relembrar que apresentou a esposa Célia a José Jackson, também quando o recebeu na casa de Coriolano de Medeiros. Ao falar de Geraldo Magela Cantalice, Marcos Trindade, Dorgival Terceiro Neto ou Afonso Pereira, estes três acadêmicos, o primeiro não, na verdade Manuel Batista entronizou todos no convívio permanente da camaradagem e da busca do conhecimento - aventuras árduas, pitorescas, perigosas, mas também muito profícuas, capazes de unir o útil ao agradável.
        Afinal, arrefecidas as fogueiras juninas das paixões das noites invernais, protegida a pele dos raios incandescentes dos sóis amorosos do verão, restam as sementes no outono, estas sempre cultivadas no borralho morno das aventuras perenes do conhecimento que se obtém na camaradagem e desta mesma camaradagem, da qual brota o conhecimento, sempre propício a gerar frutos de sabor inigualável. Do púlpito à página, da banca à classe, do escritório à estrada, vai o semeador a semear, o agricultor a ceifar e o meeiro de Deus a colher estas sementes no outono, que germinam em flores da primavera, que nunca finda, pois se pereniza no eito da palavra e na seara da língua.

 

José Nêumanne, jornalista, poeta e escritor, é editorialista do Jornal da Tarde, comentarista do SBT e da Rádio Jovem Pan e ocupante da cadeira 01 (Augusto dos Anjos) da Academia Paraibana de Letras.

(*)Prefácio do livro Sementes no outono, de Manuel Batista de Medeiros.

 

 

 

 

 

 

De acordo com a legislação em vigor, esta mensagem não pode ser considerada SPAM por possuir: identificação do remetente; descrição clara do conteúdo; e opção de remoção. Se você não deseja mais receber mensagens como estas, envie-nos novo e-mail, colocando em ASSUNTO, a palavra RETIRAR. Webdesigner: