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Está certo que há um bom motivo para Manuel Batista ter
batizado este livro de Sementes no Outono. O autor não
é chegado a camuflagens, não se perde em ademanes, não se
satisfaz com a perfumaria das cortes: ele é do tipo estamos
aí, pão pão queijo queijo, comigo não, violão! O que tem a
dizer diz. Se tiver de calar, cala, mas não é adepto dos
malabarismos diplomáticos nem dos subterfúgios performáticos.
Então, o título quer dizer o seguinte: não sou mais nenhum
garoto, mas estou aí produzindo, contribuindo, lutando,
enfrentando a vida, quer encarar? Então, não vou ser eu, por
mais brigas que também goste de comprar, que vou mudar o
espírito da performance (palavra paroxítona do jeito que o
velho Houaiss propugnava, queria que fosse, garantia que era)
desejada por quem dedicou anos de labuta intelectual para
pregar, educar, escrever, administrar, dirigir, advogar,
fundar etc. Manuel Batista foi padre, não o é mais, mas
continua um semeador, daqueles que sai por aí esparramando
sementes em qualquer estação, em vez de espargir água benta. E
não se dispõe a desperdiçar o latim duramente aprendido no
seminário nas batalhas inglórias contra o pensamento canônico
padronizado: inicia esta coletânea de textos semeados em todas
as estações (nossas), mas a ser colhidos no outono (dele), a
terçar armas contra a falácia organizada e celebrada da
“pedagogia do oprimido”. Num estilo combativo e erudito, rude
e escorreito, o soldado do Evangelho recorre à lógica plana
que os doutores da Igreja beberam em Aristóteles para reduzir
a pó as propostas de submeter a pedagogia à dialética que Marx
foi buscar em Hegel. Diz ele que não quis criticar um dos mais
célebres proponentes, Moacir Gadotti. Vai ver não quis mesmo!
Só quis fazer um estudo comparativo, como explicou. E o leitor
que tire suas conclusões. Sutil ardil: ele tratou o educador
sobre o qual escreveu como este tratou a pedagogia. Minha avó
Nanita gostava de dizer que “chumbo trocado não dói”. Vai ver
a avó de Manuel Batista lhe ensinou o mesmo. Mas eu bem que
não queria estar na pele do Gadotti. Eu, hein?!
Melhor sorte
que Gadotti tiveram os brejeiros com os quais ele conviveu na
infância lá pelas bandas de Solânea, Remígio e sua Serraria
natal. Dizem que a memória se estratifica, de forma que, à
medida que envelhecemos, nos lembramos mais do passado
distante que do próximo. Na verdade, a memória é um exercício
de criação. Ninguém se lembra do que ocorreu: todos nos
lembramos do que pensamos que ocorreu ou do que gostaríamos
que tivesse ocorrido. A memória não é o registro de fatos
históricos (memorialista é uma coisa; historiador, outra), mas
a leitura presente de uma ocorrência pretérita. Nós não nos
lembramos, mas relatamos lembranças: não somos repórteres
fiéis do que passou, mas artífices imaginativos do que
passamos. Este é o Manuel Batista que voltou ao Brejo de
origem para resgatar lá, em pleno outono, a primavera
infantil. Se ousara eu sugerir título alternativo a esta
coletânea, ele só poderia ser algo do gênero “Aventuras do
conhecimento e da camaradagem”.
No
capítulo do conhecimento insere-se o texto comparativo em que
o autor delatou a origem marxista da “antipedagogia” de
Gadotti. O da camaradagem, como sói ocorrer em semeaduras
outonais, terá de ser mais colorido, mais variado, mais vivo –
reforçando aqui a imagem usada no título adotado para evitar
incorrer na ira do prefaciado, Deus me livre e guarde! Memória
é com Manuel Batista. História, com Wolfhagon Costa, o
primeiro brejeiro a comparecer à galeria dos camaradas que não
valem pelo que fizeram e fazem, mas pelo que são. Assim,
aliás, como o autor definiu, em outro texto aqui coletado, o
político Reinhold Stephanes, brejeiro de outro brejo, o húmus
do vale dos rios paranaenses, entre os quais o Iguaçu, cujas
águas desabam num fragor titânico lá pelos lados da Argentina
e do Paraguai. No discurso em que discorreu sobre sua Serraria
centenária, o padre, o advogado, o educador, o jornalista, o
acadêmico se disse, sobretudo, “peregrino do passado”. É o que
é no tal discurso e ao longo de todos os outros que selecionou
para este livro - as saudações aos confrades da Academia
Paraibana de Letras na entrada deles na Casa - e no louvor ao
crítico, não por acaso também acadêmico, que veio de outras
plagas, mas do mesmo interior paraibano, Hildeberto Barbosa
Filho, irmão do forrozeiro Dudé das Aroeiras, ambos
ex-seminaristas, meus contemporâneos no Instituto Redentorista
Santos Anjos, em Bodocongó, Campina Grande, sob a batuta do
baiano Pitiá, que da Pietá só se aproximava pelas letras das
palavras. Sua definição de Hildeberto – “o melhor crítico
literário na cena paraibana atual” – fala mais de quem emitiu
o conceito que de quem o mereceu. Manuel Batista é assim e seu
livro espelha esta característica - a do camarada franco,
desabrido, sem meios termos, sem meias palavras. Não se leia a
frase como uma lisonja, pois é um compromisso, uma
responsabilidade que o homenageado passou a ter com quem o
homenageou, e vice-versa. O desafio é negar a afirmação
atribuída a outros (vagamente indefinidos) de que “quem não
sabe fazer nada critica”. Sempre assim na base do uma no cravo
e outra na ferradura, o autor foi distribuindo cumprimentos e
cobranças entre os camaradas: quando pôs Osterne Carneiro de
braços dados com Tales de Mileto à beira de um curso de água;
quando citou extensamente Tomás Antônio Gonzaga na saudação ao
companheiro de Ipê e de APL José Loureiro Lopes; ou ainda ao
relembrar que apresentou a esposa Célia a José Jackson, também
quando o recebeu na casa de Coriolano de Medeiros. Ao falar de
Geraldo Magela Cantalice, Marcos Trindade, Dorgival Terceiro
Neto ou Afonso Pereira, estes três acadêmicos, o primeiro não,
na verdade Manuel Batista entronizou todos no convívio
permanente da camaradagem e da busca do conhecimento -
aventuras árduas, pitorescas, perigosas, mas também muito
profícuas, capazes de unir o útil ao agradável.
Afinal, arrefecidas as fogueiras
juninas das paixões das noites invernais, protegida a pele dos
raios incandescentes dos sóis amorosos do verão, restam as
sementes no outono, estas sempre cultivadas no borralho morno
das aventuras perenes do conhecimento que se obtém na
camaradagem e desta mesma camaradagem, da qual brota o
conhecimento, sempre propício a gerar frutos de sabor
inigualável. Do púlpito à página, da banca à classe, do
escritório à estrada, vai o semeador a semear, o agricultor a
ceifar e o meeiro de Deus a colher estas sementes no outono,
que germinam em flores da primavera, que nunca finda, pois se
pereniza no eito da palavra e na seara da língua.
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