ENTREVISTA AO JORNALISTA E POETA ASTIER BASÍLIO

1- Qual a sua ligação com José Lins do Rego, que dá nome à medalha que você recebe, e qual o seu sentimento ao ser escolhido como o primeiro escritor a receber esta comenda de mérito literário?

José Lins do Rego é o grande escritor brasileiro com que mais sempre me identifiquei. Ambos somos José, somos paraibanos e somos Flamengo. Ele morreu na idade com a qual eu recebo a medalha com seu nome, mas espero "não viajar antes do combinado", como diz meu amigo Rolando Boldrin, na mesma idade que ele.É muito maior do que a importância que hoje a crítica de imprensa e a academia lhe atribuem, talvez por causa de sua franqueza agressiva e de seu temperamento forte, parecidos com os meus. Paulo Henrique Amorim, genro de Henrique Simas, me disse certa vez que o sogro, que era muito ligado a Zé Lins, mesmo depois de se ter separado de Betinha, a filha dele, fez uma descrição do grande romancista que se assemelha muito a mim, embora fisicamente não pareçamos um com o outro. Falta-me sobretudo, é claro, seu talento genial de ficcionista. Sinto-me honradíssimo com a medalha, e não poderia ser diferente, mas gostaria de chamar a atenção geral para a obra do patrono, e não para a figura do condecorado. Pois a língua e a literatura portuguesa precisam muito de seu resgate do criminoso ostracismo a que ela tem sido relegada.

2- Qual seu romance preferido de Zé Lins e por quê?

Como todo mundo, gosto muito da obra de estréia dele, Menino de Engenho, e de seu contraponto de maturidade, Meus verdes anos. Também li com devoção o ciclo sertanejo - Pedra bonita e Cangaceiros. Mas, sem dúvida, Fogo morto é o romance que mais me comoveu e mobiliza até hoje. Lembro-me que me tranquei no quarto dos fundos da casa dos meus pais, na rua Lisboa em Campina Grande, no fim dos anos 60, e o li de um fôlego só. Muita gente se lembra de Vitorino Carneiro da Cunha, o Papa-rabo, mas meu tipo inesquecível, não apenas em Fogo Morto, mas em toda ficção, é a figura de tragédia grega do seleiro Zé Amaro, o protagonista do livro. Ler Fogo morto foi decisivo para que eu acordasse do sonho de fazer Geologia e dedicasse minha vida, como o fiz daí em diante ao ofício das letras, no jornalismo e na literatura.


3- Qual seu próximo passo na área ficcional? O sucesso de crítica do seu último romance o motivou a continuar escrevendo romances?

Sim, quero muito escrever um romance. Mas ando empenhado em dois projetos opostos: estou escrevendo o texto do depoimento de meu patrão, Antônio Augusto do Amaral Carvalho, Tuta, dono da Rádio Jovem Pan, contando sua passagem pela TV Record (O fino da bossa, Jovem guarda, os festivais, etc.) e a forma como lançou o rádio de serviço no Brasil. Isso me tem tirado o sono nestes dias. E, a longo prazo, preparo minha coletânea de poemas Escrituras profanadas. Assim que entregar o livro do Tuta, contudo, quero mergulhar de cabeça num romance que seria uma espécie de O silêncio do delator pelo avesso. Só que isso leva tempo.
 

O jornalista, poeta e escritor José Nêumanne Pinto recebeu sexta-feira 26 de outubro a medalha José Lins do Rego do mérito literário na Assembléia Legislativa do Estado da Paraíba, em João Pessoa.

       

 

 

 

 

 

 

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