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A padroeira dos contadores de histórias para encantar é
Sherazade, a bela filha do grão-vizir que, nos contos das Mil
e uma noites, prendia a atenção do sultão, noite após noite,
com narrativas fabulosas - como a do marujo Sinbad, entre
tantas outras clássicas -, que ganharam o mundo todo, para se
manter viva. Ela sobreviveu à ameaça de morte pelo soberano às
amantes que levava para a cama, mas também conquistou o sonho
dourado de cada humano: a imortalidade. Tanto é verdade que
aqui uma vez mais ressuscita para servir de introdução a uma
resenha sobre livro de uma escritora brasileira, cujo último
romance, aliás, a tinha como protagonista (Vozes do deserto,
2006). Só que, desta vez, Nélida Piñon, brasileira,
descendente de galegos, não comparece ao mercado livreiro com
mais uma obra de ficção, uma obra reconhecida e consagrada
internacionalmente (bateu o excepcional poeta e bem-sucedido
colega romancista americano Paul Auster na disputa pelo
Príncipe Astúrias, prêmio dado pela Espanha a escritores de
renome internacional). Mas apenas reuniu discursos,
conferências, ensaios e resenhas para falar da arte de sua
personagem rediviva num volume, Aprendiz de Homero, editado
pela Record.
Coletâneas de textos já publicados costumam ser concessões à
facilidade e ao comodismo de autores que compensam a falta de
inspiração comparecendo ao mercado para dar satisfação a seus
editores ou manter o próprio nome em circulação em momentos de
entressafra provocada pelo abandono das musas. Convém fugir
desse gênero de expediente. Mas este não é o caso da mais
recente obra de não ficção da célebre ficcionista: este é um
livro orgânico, íntegro e, sobretudo, de leitura muito
agradável. Nélida tem tal habilidade no manejo de nossa não
mais inculta, mas ainda bela língua galaico-portuguesa (com
raízes fincadas nos pagos da Galícia de seus ascendentes) que
acaba prendendo o leitor numa teia sutil e fina, mas de fibra
resistente, tornando-o súdito de seu próximo passo, de sua
próxima lição - assim como Sherazade fez com o amante cruel.
Nos textos todos, não importa sua destinação, sua data ou seus
motivos, a autora pratica aquilo que o lingüista Frank Kermode
chama de "conluio sedutor", ao se referir a canções narrativas
de Bob Dylan, caso de Desolation Row. E, como exige seu amigo
Gabriel García Márques, o autor de Cem anos de solidão,
consegue o raro feito de alterar o ritmo da respiração do
leitor, como se lhe estivesse narrando uma história de
trancoso ou um caso de amor daqueles de demolir corações.
Nélida tece esta teia ligando pontos de heranças, influências
e vivências. O leitor é informado de passagens fundamentais
que determinaram sua opção profissional, como se fosse um
velho amigo da família convidado para uma prosa ao pé do fogo.
“Os livros e os escritores, porém, sempre enlaçados, teciam
perante meus olhos aqueles enredos que seus personagens
viviam, mas eles, não. Por isso mesmo9, alquimistas e bruxos,
eles me conduziam sob o impulso da escrita, à presença de D'Artagnan,
na Place des Vosges”, escreveu ela. O lembrado Dumas, o
parceiro Vargas Llosa, o mestre Faulkner, o patrono Homero,
citado no título, são mãos que a guiaram nesse passeio
encantado pelo mundo das letras
O título fala por si só da postura da autora quanto à relação
entre ela e seu público: o exercício da literatura, para a
autora de A república dos sonhos, é um aprendizado permanente,
no qual o talento narrativo de Sherazade só tem razão de ser
na exata medida da atenção que lhe presta o sultão. A
escritora não assume uma postura de criadora de fatos e
personae, mas de alguém que se dispõe a transmitir os rumores
da tribo. É o caso de lhe passar a palavra: “sei-me destinada
a queimar meu coração, a repartir minhas fibras entre
anônimos, entre filhos de outros, que não são do meu sangue. A
sofrer emoções advindas de um convívio difícil, mas comovente.
Um convívio que, a despeito das fricções, não recebe o beijo
envenenado”. Em outros termos, criar, para ela, não é um ato
sobrenatural, um sopro de inspiração divina, mas um gesto
corriqueiro da rotina, algo assim como tomar café e olhar a
paisagem (em seu caso, a privilegiada vista da Lagoa Rodrigo
de Freitas, uma das mais lindas do mundo). Sua profissão de fé
na humildade do ofício é comovente: "Jamais cobrei dos livros
verdades e certezas. Intuía que as palavras saíam
necessariamente do forno da mentira, que revestia as ações
humanas. Mas em troca pedia-lhes a vida do vizinho, mais
fascinante que a minha. Uma vida espessa como um mingau,
segundo afirmavam os pensadore, coalhada de aventuras e de
afetos intensos. Daí meu coração acelerar-se ao ritmo da
fantasia”.
Melhor definição para sua obra em geral, e esta particular,
não haverá: uma fascinante, erudita, comovente, articulada e
apaixonada conversa de comadres. “Uma vida espessa como um
mingau, segundo afirmavam os pensadore, coalhada de aventuras
e de afetos intensos. Daí meu coração acelerar-se ao ritmo da
fantasia”. Assim é o livro novo de Nélida Piñon: um tributo à
mentira construído por verdades que nunca morrem, mas habitam
a alma e o coração dos homens e permanecem impressas nas
páginas que compõem todo o acervo das bibliotecas do mundo.
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