|


José Nêumanne
Pedro Galvão não é poeta de
se abrigar nos confortos da lisonja e na passividade da
contemplação: seu verso, longo ou curto, nervoso ou ritmado, um
tanto apocalíptico, um tanto fotográfico, mais garimpa a jaça
que o brilho geométrico e ofuscante do diamante lapidado. Na
condição de fazedor de
poemas,
diz-se amador, embora pareça mais sê-lo no exercício
profissional competente, e como tal reconhecido em Belém, São
Paulo, Rio e Bahia, de publicitário. Este é pago para tecer
loas, vender produtos, cativar ilusões. Aquele paga para berrar
a insignificância da vida, o legado inexorável da morte, a
podridão em que o belo fenece, o mau cheiro das cloacas onde a
lama desliza, espessa e mole, a metáfora da qual não dá para
fugir, a imagem na qual tudo se decompõe. O executivo da
propaganda busca nas horas úteis do dia a fagulha do gênio que
ilumina na alma do comprador o desejo do consumo do bem, do
serviço ou da idéia, particular e genérica, da iniciativa, do
empenho e do engenho. Este é permanente: almoça e janta, se
barbeia e sai, ama e rejeita, abraça e trai. O amador bissexto,
não: este, em vez de se erguer, cai e chafurda na vida o que ela
tem de sórdido e sublime, o paladar refinado dos melhores vinhos
e as fezes pútridas em que toda a gastronomia se consome. O
vendedor de slogans, frases, lemas e palpites se compraz na
ordem e se realiza no gozo do fátuo que se torna essencial: o
supérfluo que vira salário, o suor do rosto do salafrário. O
comprador do inútil e inconsútil desprazer de se desfazer em
bolhas de ar recorre à desordem, recolhe os retalhos, tritura o
lixo orgânico que se dissolve no ar, por ser sólido e vulgar,
sangra o infinito, arranha a dor das mãos vazias. Mãos presas à
bateia na qual vale mais a areia que a pepita, mais paga a saga
que o peso do raro minério vão bamburrado. Pernas cambaleantes
sobre o precipício afundam na areia movediça ou simplesmente se
deixam suspender no ar do último andar do último edifício, a
margem de todo precipício.
Pedro Galvão é um
poeta incômodo e incomodado, lida com as palavras como se elas
fossem a ponta rombuda do bisturi cego ou a lâmina enferrujada
do canivete que a velha prostituta da piada de salão guardou
para dar à jovem clientela na velhice. No vôo de Sérgio Galvão,
“todo o insuportável problema de viver”. Da mesma forma, a garça
urbana, sem graça e feia, pobretã, na água suja da praça,
mendiga e pesca a própria desgraça, como os outros pedintes
bebuns da mesma praça, o mesmo cansaço da entrega da carcaça,
“já sem vôo de vôo” e a companhia solícita e solitária do cão
vagabundo correndo, fugindo da praça.
Como o profissional
competente da comunicação burila lemas e encontra
palavras-de-ordem para conduzir o consumidor entre as
prateleiras, fazendo-o deter-se num bem, num serviço ou numa
missão entre tantas embalagens, o poeta impenitente e
intrometido atravessa a vida vã com a ponta fina e fria de seu
punhal e o corte anguloso de sua visão penetrante. “A noite é
longa e longa a madrugada” é o verso final de seu poema sobre o
fogaréu nas ruas de Paris em novembro de 2005. Ele captura o
invisível e revela o indizível no fecho de Dona Santa no
cemitério de Viseu: “Ele esperou a filha envelhecer / e viveu
dentro dela até morrer”. Ou exibe seu despudor fulgurante numa
baladinha brega cantando a temeridade de ser feliz: “Vai,
balada, me acompanha / e sem medo da pieguice / diz-lhe: amor de
minha estranha / e tão poética vísce-/ra: - Amor do meu
coração”. Sim, a poesia de Pedro Galvão é víscera, entranha e
músculo. É isso e mais: o relato da volta do outro Pedro, o
velho, o pai, indo para casa pelas ruas e becos de Belém, sua
Belém paraoara; a recepção no céu ao colega Vinicius com todos
“mijando em comum numa festa de espuma”; a constatação simples,
despojada, despudorada de que “esta mulher, viva em meus braços,
é poesia”; e mais, muito mais, pode crer, aposte, não desista.
Bissexto é uma ode à jaça onde
brilha o diamante de uma obra primorosa como é “Vitória, em
silêncio”, na qual a impotência humana diante dos mistérios da
doença da musa viva e imóvel em seu leito definitivo se expressa
numa linha desesperada e sintética, capaz de resumir a
comunicação sigilosa e imponderável entre o humano e o divino,
aliás, a oração: “Então falo com Deus. E Deus não fala”. Este
soneto monolítico, esta reza indignada, este sacrifício à beira
do tálamo é o resumo de Bissexto e da obra poética de Pedro
Galvão: a revolta diante da necessidade e da impossibilidade do
milagre imprevisto.
|