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José Nêumanne
O paraibano Antônio
Barros é um ídolo da música regional junina no Nordeste: compôs
mais de 600 canções, muitas das quais foram sucessos absolutos
de intérpetes como Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, Jackson do
Pandeiro, Trio Nordestino, Três do Nordeste e Ney Matogrosso (Homem
com agá). Mas isso não evitou que protagonizasse um episódio
no mínimo contraditório para um artista de sua importância: foi
contratado para abrir o show cuja atração principal era a banda
Cascavel, da qual ele, sua parceira e mulher Cecéu e a filha dos
dois, a cantora Maíra, nunca ouviram falar. No entanto, a cidade
de Aroeiras, no interior da Paraíba, estava em polvorosa com a
chegada da banda e ele recebeu o cachê e instruções rigorosas
para deixar o palco assim que a banda chegasse. Ao fazê-lo,
testemunhou o frenesi histérico com que a atração principal da
noite foi recebida por seu público. O fato marcante registrou a
transição do forró de pé de serra, cultuado por ele e outros
grandes artistas, como Santanna Cantador, Flávio José, Nando
Cordel, Dominguinhos e outros, para o forró eletrônico,
produzido no Ceará.
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Chico César e Richard Galliano |
Pinto do Acordeon |
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Dominguinhos e Richard Galliano no
Parque do Povo |
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Capitaneadas por um empresário pra lá de bem-sucedido residente
em Fortaleza, bandas com instrumentos eletrificados e nomes
semelhantes, formadas por instrumentistas anônimos, todos
funcionários do mesmo patrão, dominam a programação musical das
emissoras de rádio e televisão e reinam absolutas nos palcos do
interior do Nordeste nas festas juninas. Manoel Gurgel, o
imperador do forró cearense, se dá ao luxo de propor parcerias
aos grandes compositores regionais, numa tentativa de
cooptá-los, da mesma forma como faz com programadores de
emissoras de AM e FM em praticamente todas as cidades dos nove
Estados nordestinos. Mas pelo menos nisso ele ainda não obteve
êxito.
Ao contrário, os
representantes da música regional junina autêntica no Nordeste
começam a reagir contra a invasão do forró eletrônico. E acabam
de encontrar um aliado absolutamente inesperado... na Suíça.
Tudo começou em Patos, no sertão e no meio do mapa da Paraíba,
cidade onde se diz que se pode fritar ovos no cimento da
calçada, tão quente se faz presente o sol por lá. Pierre Landolt,
herdeiro de um grupo multinacional de índústrias farmacêuticas,
se instalou em sua zona rural, onde estabeleceu uma fazenda para
criar bovinos, ovinos e caprinos. Com os peões instalados em sua
propriedade, ele aprendeu a amar os trios de forró de pé de
serra formados por sanfona, zabumba e triângulo. E os apresentou
a seu amigo cineasta Bernard Robert-Charrue, que, ciceroneado
pelo casal de dançarinos de forró Rilávia Cardoso e Ajalmar
Maia, fez o longa metragem Paraíba, meu amor, cujo título
foi inspirado na canção homônima de Chico César, nascido um
pouco além de Patos, em Catolé do Rocha, nas proximidades de
Brejo do Cruz, berço de Zé Ramalho. |
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Chico César e Aleijadinho de Pombal |
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O cineasta suíço registrou em imagens coloridas o inesperado
encontro do acordeonista de jazz francês Richard Galliano,
elevado ao panteão dos maiores instrumentistas da Europa, com o
sanfoneiro pernambucano Dominguinhos, herdeiro reconhecido pelo
Rei do Baião e herói do europeu. O duelo entre o jazzista e o
forrozeiro se deu no palco principal do lugar onde se realiza o
que se chama “o maior São João do Mundo”: o Parque do Povo, em
Campina Grande. O francês também acompanhou Chico César na
canção-título e contracenou com dois sanfoneiros paraibanos,
Pinto do Acordeon, que mora em João Pessoa, e Aleijadinho de
Pombal, cidade que fica entre Patos e Catolé do Rocha.
Concluído o preito cinematográfico ao forró
autêntico, em plena temporada de resistência contra o forró
eletrônico de Manoel Gurgel, o resultado foi apresentado em
Karlsruhe, na Alemanha. E com tal êxito que está sendo prevista
ainda este ano uma “noite do forró”, no Festival de Jazz de
Montreux, na Suíça, com os protagonistas do documentário. Um dia
depois de o filme ter sido lançado no Cine Bangüê, no Espaço
Cultural José Lins do Rego, em João Pessoa, todos estes artistas
populares se reuniram com mais 50 forrozeiros na estréia do
filme no auditório da Federação das Indústrias da Paraíba
(Fiep), em Campina Grande. Para lá acorreram Flávio José,
apontado por Dominguinhos como seu herdeiro; o patriarca Antônio
Barros com suas Cecéu e Maíra; Santanna Cantador, natural de
Juazeiro de Padre Cícero e com um timbre muito semelhante ao de
Gonzaga; e outros astros do forró de pé de serra, para os quais
a vulgaridade do duplo sentido pornográfico das “bandas”
eletrônicas (como a Calcinha Preta) não é somente uma questão de
decência, mas de sobrevivência.
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Bernard Robert-Charrau, ladeado
por Ajalmar Maia e Rilávia Cardoso |
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O filme de Charrue não tem a qualidade do
documentário de Wim Wenders sobre o resgate da música
tradicional cubana graças ao espetáculo produzido pelo
guitarrista americano Ry Cooder, Buena Vista Social Club.
Mas pode ser que ele venha a se tornar no ponto de partida para
o resgate da mesma autenticidade que o autor da trilha sonora de
Paris, Texas evitou que se perdesse no Caribe, impedindo que o
forró de pé de serra seja sepultado no sertão pelo comercialismo
urbano das bandas de Manoel Gurgel.
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