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Nascido na pequena cidade de Uiraúna, no Vale do Rio do Peixe,
alto sertão paraibano, na fronteira entre a Paraíba, o Rio
Grande do Norte e o Ceará, José Nêumanne começou sua carreira de
jornalista no final dos anos 60 como crítico de cinema e
repórter de polícia no Diário da Borborema, de Campina Grande.
Seguindo a saga nordestina, José Nêumanne saiu da Paraíba para
ganhar a vida em São Paulo. Em terras paulistas, trabalhou na
Folha de S. Paulo, foi repórter especial da sucursal paulista,
além de secretário e chefe de redação do Jornal do Brasil, no
Rio, editor de política e de opinião de O Estado de São Paulo.
Foi, ainda, colunista na edição em espanhol do jornal The Miami
Herald, onde escrevia um artigo mensal sobre o Brasil. Desde
1996 é editorialista do Jornal da Tarde, é comentarista diário
da Rádio Jovem Pan e comentarista político e econômico no
programa diário “Direto ao Assunto”, no SBT.
Na sua infância como seminarista, foi muito aficionado à
leitura, momentos que fariam a base de sua carreira
profissional. Foi influenciado por grandes escritores e poetas
como Augusto dos Anjos, Castro Alves, Manuel Bandeira, Truman
Capote, Jorge Luís Borges, James Joyce, Albert Camus, entre
outros.José Nêumanne atribui a sua paixão pelas letras e pelo
jornalismo aos poemas que ouvia sua mãe dizer de cor nas noites
de lua do sertão paraibano de Uiraúna. Desde essa época, ele
sonhava escrever suas próprias histórias. Atualmente, ele tem
uma carreira de sucesso, com mais de dez livros publicados, três
de poesia, um romance e cinco de reportagens e ensaios políticos
— entre romances, biografias e poesias. É um dos jornalistas
brasileiros mais celebrados.
Seu nome é uma corruptela do nome do cardeal inglês John Henry
Newman. Ao registrá-lo, seu pai não levou escrita a grafia
correta do nome e a escrivã grafou como ouviu: “nêumann”,
acrescentando um “e” para aportuguesar.
Numa manhã azul de domingo, a equipe da Papangu tomou café ao
lado de José Nêumanne, num hotel na Via Costeira natalense,
tendo a companhia do escritor Nei Leandro de Castro e do músico
Mirabô Dantas. Na entrevista, falamos de literatura, poesia,
música, jornalismo, autores brasileiros, movimento Armorial,
entre outros tópicos.
José
Nêumanne, o que há em comum entre o menino sertanejo de Uiraúna
e o famoso jornalista e escritor?
Na verdade, eu sou o menino sertanejo de Uiraúna. Eu me sinto
ainda como se fosse um menino do sertão. É engraçado porque há
dois anos, quando a TV Tambaú, da Paraíba, me homenageou no
programa “Personalidade de Tambaú”, eu fui à Uiraúna refazendo
todo aquele trajeto e foi como se eu tivesse vivenciando o
menino sertanejo de Uiraúna. Eu sinto todas as características
do menino sertanejo com aquela ingenuidade de olhar o mundo com
grande curiosidade. Como todo bom sertanejo, eu me sinto um
profissional da vingança e da sobrevivência.
Como
jornalista, você já adquiriu reconhecimento nacional. E como
poeta e escritor?
São coisas diferentes. Eu tenho uma carreira jornalística e isso
me faz ser reconhecido como jornalista. Como escritor, eu
estou buscando reconhecimento. Como fiz no livro “O Silêncio do
Delator”, gosto de fazer umas comparações sobre esse assunto. O
Pelé foi o maior atleta do século e, no entanto, ele gostaria de
ser reconhecido como um compositor. Então, eu sou um jornalista
que gostaria de ser reconhecido como poeta e escritor. Sou um
poeta bissexto e sou um escritor mais bissexto ainda. Um
romancista de dois romances. Um dos romances, “Veneno na Veia”,
é um romance meio realizado porque, segundo meu amigo Rui
Fabiano, grande romancista e jornalista, é um romance que vai
até a metade e depois ele deixa se impregnar pela linguagem
jornalística e se perde. O outro romance, que é “O Silêncio do
Delator”, foi premiado pela Academia Brasileira de Letras como o
melhor livro de 2004 em 2005. Esse prêmio é muito importante pra
mim porque eu não fiz a inscrição no prêmio. Os acadêmicos se
reúnem e escolhem aleatoriamente um livro que eles consideram
importante. É também importante porque foi o primeiro romance a
receber esse prêmio. Eu me orgulho muito dele, mas ainda não
considero que esse prêmio seja uma consagração ou me realize
como escritor. Eu acho que ainda sou um escritor iniciante,
marginal e em busca de uma solidez do meu ofício.
Numa
entrevista, você declarou que sua poesia pretende aproximar cada
vez mais a alma do texto, recorrendo ao mínimo possível a
truques verbais. Você acha que a poesia é mais inspiração do que
um trabalho árduo em busca da rima e da métrica perfeitas?
Metade da minha vida como poeta foi uma busca formal e
exagerada. Foi uma “sub-cabralice” bastante transpirada e não
muito inspirada. Eu acho que atingi a maturidade poética no
livro chamado “Barcelona Borborema”, um dos meus três livros de
poesia, um livro metade sobre Barcelona e a outra metade sobre a
Borborema. Sobre Barcelona, é uma inspiração cabralina, formal e
rigorosa. A outra parte sobre Borborema é em relação a Campina
Grande, que é minha descoberta e é o sopro da inspiração, como
chama Bráulio Tavares. Que é essa coisa a que você está se
referindo e é o que eu busco cada vez mais. Onde estou escravo
da minha inspiração e transpirando cada vez menos para tentar
ser o mais possível fiel ao que a inspiração me traz. Se hoje eu
tivesse que usar uma epígrafe para minha poesia, eu usaria o que
Adélia Prado diz: “Dos meus poemas, eu só tenho a letra”.
O
que danado a terra catalã de Barcelona tem a ver com o sertão da
Borborema?
Eu vou usar uma frase do meu “inimigo” de infância, Bráulio
Tavares, que foi dita pelo Antônio Nóbrega num show: “o que
danado tem a ver violino com frevo?”; e eu digo: “eu”, porque
sou fã das duas.
Como
acontece sua criação poética e como você definiria seu estilo
como poeta?
Eu fui poeta vanguardista do grupo de Poema-Processo. Eu
tinha uma ligação muito grande com Natal. O grupo de poetas em
processos tinha dois núcleos: um no Rio de Janeiro, com Vlademir
Dias Pinto e Álvaro de Sá, e, em Natal, com Nei Leandro de
Castro, Moacy Cyrne, Dailor Varela, Falves Silva e Anchieta
Fernandes. Nessa época eu estava morando em Campina Grande, tive
contato com esse pessoal em João Pessoa. Então, participei desse
grupo e cheguei a fazer uma exposição em Campina Grande que foi
apreendida pelo Exército, na época da ditadura. Depois, parti
para um tipo de poesia, como falei anteriormente, muito
cabralina. José Paulo Paes registrou que era uma poesia muito
lacônica, de poucas palavras. Uma poesia mais de cortar palavra
do que colocar palavras. Estou buscando a comunicação direta
entre a palavra e a emoção. Eu estou, cada vez mais, procurando
levar ao leitor aquilo que sinto. Não me classifico em nenhuma
escola. Sou um poeta que tem ligação com Castro Alves, que
considero o maior poeta brasileiro de todos os tempos, porque
minha mãe ficava declamando versos dele nas noites escuras do
sertão, em Uiraúna. Minha obra poética está, cada vez mais,
conectada com as obras de Castro Alves e Augusto dos Anjos.
Quando faço poesia entro numa espécie de transe. Alguns poemas
meus são sonhados. Há um poema chamado “Poeira de Estrelas” que
são versos sonhados inteirinhos, do qual Zé Ramalho pegou a
primeira estrofe e transformou numa canção muito bonita chamada
“Norte do Norte”, que ele gravou com Sandra de Sá.
Seu
romance memorialista “O Silêncio do Delator” é o retrato de uma
geração amordaçada, onde o jornalismo era feito de uma maneira
heróica. Então, naquele tempo só se dava bem quem era delator?
Não. O delator sempre se dá mal porque, no fim, o delator tem
que prestar contas a Deus. Há um caso clássico do delator que
entregou meu grupo, do qual a principal vítima foi a minha
namorada, ex-mulher, mãe dos meus filhos, avó dos meus netos,
Regina Celli, a maior vítima dessa situação em Campina Grande. O
delator era um professor, um cara que era dono de colégio, João
de Assis, um canalha, um crápula, e eu considero que ele não foi
bem-sucedido. Bem-sucedidos somos nós, a Regina e eu, que
sobrevivemos à delação dele e ao regime a que ele serviu. A
minha geração é a alma do livro e tudo que conduziu o livro
durante os vinte anos em que ele foi escrito e nove meses no
computador. Essa foi a geração que se propôs a revolução
política e nós terminamos ou na ditadura ou nesse populismo
corrupto em que estamos imersos.

E o que você leva do
jornalismo para a literatura de ficção?
Um dos lemas da minha juventude era uma frase do Ernest
Hemingway, que dizia: “Todo bom escritor tem que passar por uma
redação de jornal. Mas, para ele ser bom mesmo, ele tem que sair
dela”. E até hoje eu não consegui sair da redação de rádio,
jornal e televisão. Eu só espero que os vícios do jornalismo não
interfiram na minha prosa de ficção e na minha poesia. Minha
prosa provém de um universo onírico. Quando resolvi escrever “O
Silêncio do Delator” prometi ao Pedro Paulo de Sena Madureira,
meu editor na época, que faria um livro desprovido de técnicas
narrativas. Por fim, terminei fazendo um livro complicadíssimo
sob o ponto de vista da narrativa, onde o James Joyce falou mais
alto do que o Jorge Luis Borges dentro de mim. Então, o ato de
escrever é um processo que não controlo.
E
essa linguagem rebuscada é o futuro do jornalismo impresso que
caminha para uma tendência de textos mais requintados para um
público leitor específico?
Quando comecei no jornalismo meus ídolos eram Truman Capote e
Tom Wolfe, a turma do “new journalism”. Minha escola é
basicamente a “new journalism”, ou seja, a procura de levar para
o jornalismo técnicas de ficção e usar na realidade material de
ficção. No século XX, há três livros capitais que exemplificam
bem isso: “Ulisses”, de Joyce; “Ficções” de Borges e o
“Estrangeiro”, de Albert Camus. Agora, depois desses anos todos
no jornalismo, acho que o livro “A Sangue Frio”, de Truman
Capote, completaria um quarteto. “Ulisses” seria o laboratório
da linguagem; o Borges seria a perseguição da idéia; o Camus,
que é o grande profeta do século XX, e, por fim, o Truman
Capote, que faz o inverso do Borges, que transforma a realidade
em ficção. O jornalismo impresso deve deixar a notícia para os
outros meios como a internet e o rádio. Hoje a gente vive
recheado pela informação, onde 90% é inutilidade. O papel do
jornal é filtrar essas informações para levar qualidade para o
leitor. Como trabalho nos quatro meios (rádio, jornal, internet
e televisão), me sinto à vontade para falar sobre isso.
Você
teve seus versos gravados por Zé Ramalho e agora sua poesia faz
parte de uma parceria no disco “Mares Potiguares”, de Mirabô
Dantas. Você escreve versos destinados para canções ou já nascem
como música?
Eu tenho processos diferentes para as parcerias. Esse poema
que Zé Ramalho musicou, que falei antes, era um poema que nunca
pensei que fosse virar uma letra para uma canção. Eu já fui
parceiro do Zé com um processo diferente, quando o Zé recebeu
uma encomenda para uma música figurar numa trilha sonora de uma
novela da TV Bandeirantes. Nós passamos um fim de semana num
hotel no Leblon e fizemos uma canção chamada “Lua semente”, que
foi gravada por Amelinha. Há outro parceiro, Gereba, que nasceu
em Monte Santo, no interior da Bahia, que musicou uma letra que
fiz. Também fui parceiro do Mirabô Dantas nos anos 70, quando o
Mirabô morava em São Paulo. E aconteceu uma coisa muito
interessante nessa parceria, é que eu lembro perfeitamente de
uma letras que fizemos, mas não me lembrei de outra. É muito
variado o universo dessas parcerias.
Excetuando
Câmara Cascudo, que não era poeta nem romancista, a literatura
potiguar nunca produziu nomes que se destacaram no cenário
nacional, ao contrário de vizinhos nossos como Ceará, com José
de Alencar, ou Augusto dos Anjos, na Paraíba. O que está
faltando na literatura potiguar para que ela aconteça no Brasil?
O Rio Grande do Norte tem uma poetisa maravilhosa que é Auta
de Souza e um grande poeta que é Jorge Fernandes. Há também
outro poeta que considero muito injustiçado, que é José Bezerra
Gomes. Atualmente, a literatura potiguar tem grandes nomes em
atividade, produzindo, como Nei Leandro de Castro, cujo romance
virou filme. São as circunstâncias do consumo dessa literatura.
Não sei quanto a outras opiniões, mas eu considero Jorge
Fernandes, Auta de Souza e José Bezerra Gomes grandes poetas que
deveriam figurar em qualquer antologia poética nacional.
Apesar
da Paraíba e o Rio Grande do Norte serem Estados vizinhos, há
uma grande distância entre poetas, músicos, artistas,
escritores, jornalistas, etc. O que está faltando para que essa
integração gere fluxo?
Eu sou paraibano, mas nasci a sete quilômetros do Rio Grande
do Norte. Meu pai era paraibano e minha mãe é potiguar. Eu nasci
numa região onde o Rio Grande do Norte e a Paraíba eram a mesma
coisa. Na verdade, eu sou o produto de uma cultura paraibana,
potiguar e cearense. Então o Fagner, que é de Orós, é mais
conterrâneo meu do que José Lins do Rêgo, que nasceu na Zona da
Mata. Há também o Zé Ramalho, de Catolé do Rocha, na mesma
região. Eu acho que temos uma identidade cultural muito maior do
que com o José Américo de Almeida, que nasceu em Areia. Eu acho
que esse isolamento que você fala existe também entre Natal e
Mossoró, Campina Grande em relação a João Pessoa. Você está
falando do isolamento que existe entre João Pessoa e Natal e não
o da Paraíba.
Você
ganhou um prêmio, “Senador José Ermídio de Morais”, pela
Academia Brasileira de Letras, de melhor livro em 2004 com o
romance “O Silêncio do Delator”. O livro também figurou entre os
dez finalistas do “Prêmio Literário de Portugal”. Você acha que
está no caminho literário certo ou ainda há espaço para
experimentalismos?
Quando terminei de escrever o livro, meu orgulho é que não
dava para situar o livro. Quinhentas páginas sem um lugar
específico. A trama acontecia em Nova York, Paris e São Paulo,
mas a ação principal acontece num lugar incerto e não sabido no
mundo. Meu “inimigo” de infância, Bráulio Tavares, escreveu um
artigo num jornal em Campina Grande dizendo o seguinte: “José
Nêumanne tentou nos enganar, mas aquilo é Campina Grande. Eu
reconheço Campina Grande em cada linha do livro dele”. E o sogro
do meu filho, que é lisboeta, disse: “Mas, engraçado, eu pensei
que era em Lisboa”. Meu próximo projeto que quero escrever, vou
fazer exatamente o oposto. Quero que seja situado num lugar, mas
sem definição de tempo. Eu não sei se será um livro
experimental. Agora, “O Silêncio do Delator” é um livro
experimental porque é um livro falado em várias vozes.
Você
acredita que o Movimento Armorial, criado por Ariano Suassuna,
será reconhecido como um estilo de vanguarda, uma nova escola
absorvendo literatura, cinema, artes plásticas, música, teatro,
etc?
Sou muito amigo e admirador do Ariano. Acho o “Auto da
Compadecida” um clássico e a “Pedra do Reino” eu considero que é
o maior romance brasileiro desde “Grande Sertão: Veredas”, do
João Guimarães Rosa. Não participo desse endeusamento achando
que Ariano é maior do que Machado ou Guimarães. É preciso ter
calma. Há muita influência da TV Globo nessa supervalorização da
obra de Ariano. Eu acho o Armorial um movimento magnífico. Gosto
muito da literatura do Ariano e gosto também da musicalidade do
Antônio Nóbrega.
Agora
que o romance de Nei Leandro, “As Pelejas de Ojuara”, está
chegando aos cinemas, você acha que está na hora do brasileiro
descobrir o romance nordestino? Antigamente, só havia a
literatura de Jorge Amado.
Acho que o romance do Nei veio na hora certa e tenho certeza
que foi muito bem-sucedido em termos de adaptações
cinematográficas. E o grande público só vai conhecer o romance
quando passar na televisão. O filme ficará pouco tempo na tela e
depois vai para a televisão, que é a grande vitrine do mundo.
O
Supremo Tribunal Federal recebeu denúncias dos parlamentares
envolvidos no mensalão porque eles têm foro privilegiado. Mas, o
que você acha do STF julgar Delúbio, Valério, Silvinho e todo o
baixo-clero que não detém mandato e, portanto, não poderiam
gozar dos mesmos privilégios? Será que agora todo mundo vai
querer ser julgado pelo STF?
Eu acho que esse julgamento faz parte de um momento
histórico. Não pelo fato de que possa vir a acabar com a
impunidade no Brasil. Nossa grande praga é a impunidade. Esse
julgamento dá um tranco numa caminhada que o PT vem fazendo. Eu
não sou da turma do “fora Lula” e “fora FHC”. Mas eu acho que as
instituições têm que andar e Lula foi eleito para isso. Agora,
ele tem que respeitar as instituições porque ele jurou respeito
à Constituição. Acho que o Brasil deve ao Joaquim Barbosa e ao
Antônio Fernando de Souza, e ao Lula, porque foi Lula que nomeou
os dois. E tudo isso fez parte de uma técnica muito sofisticada,
inadequadamente apelidada de mensalão. Não houve mesada. O que
houve foi um método competente de comprar a decisão de alguns
deputados. Esse método foi desmantelado por causa do excesso de
arrogância do José Dirceu, que, em vez de dar o dinheiro ao
deputado Roberto Jefferson, resolveu expulsar o Roberto
Jefferson do jogo, achando que ele tinha poder e o Roberto
Jefjerson não tinha. Graças a Deus o José Dirceu não pagou e
Roberto Jefferson denunciou o esquema. Com isso, José Dirceu
perdeu a Casa Civil e o mandato de deputado, e, no entanto, é o
lobista mais bem-sucedido no Brasil. A maioria dos cargos
importantes no governo foi nomeada por José Dirceu, que
aparelhou o governo para ele. Qualquer que seja o governante que
venha depois do Lula, vai ter problemas no governo com todos
esses burocratas nomeados por José Dirceu. Mas, o STF barrou o
projeto de poder do PT.
E
esse projeto do PT é para durar quanto tempo? Na sua opinião,
quais as perspectivas para o PT permanecer no poder?
Segundo o Forum de S. Paulo, o projeto do PT é um projeto
eterno. É para tomar a República e ficar com ela para o resto da
vida. O Lula é apenas um oportunista que está levando vantagem
nesse processo, entrando na história política brasileira. Mas a
grande cabeça do projeto do PT é José Dirceu, que desenvolveu um
projeto socialista. Agora, Lula é muito inteligente porque ele
fez uma coisa fantástica que nunca ninguém praticou antes. Ele
encheu o rabo dos banqueiros de dinheiro e deu comida para os
pobres, deixando a classe média espernear porque não tem número
para derrotá-lo na eleição.
Você
tem declarado que o melhor jornalismo é aquele que é hostil ao
poder. Usando a velha fórmula de reclamar para chamar a atenção
do leitor ainda funciona?
Eu uso essa frase no sentido institucional. Quando você ocupa o
poder, você tem todo equipamento para dominar uma sociedade.
Então, é preciso que na sociedade tenha uma voz que reaja, que
impeça a autoridade de se tornar um ditadorzinho. E esse é um
papel exercido pelo bom jornalismo.
Você
sempre é convidado para bienais, congressos, palestras,
exposições, etc. Você cobra para expor suas idéias em público?
Eu tenho uma empresa que se chama “Nêumanne Assessoria de
Comunicação” e ela cobra. Até porque algumas empresas estão
cobrando para assistir à minha palestra. Agora, quando participo
de eventos para a Academia Brasileira de Letras ou um evento
para estudantes, eu não cobro.
Você
foi convidado pela prefeitura de Natal para participar do II
Encontro de Escritores, em novembro. O que você vai trazer para
o debate?
Minha idéia é falar sobre jornalismo e literatura, questionando
até que ponto a prática influencia a ficção. Agora, a prática me
mostra que sempre um debate termina se falando em política. Como
sou comentarista de televisão, é natural que as pessoas queiram
saber minha opinião sobre a política brasileira.
Você
acredita que a mídia televisiva vai direto ao assunto?
Não. A televisão é uma máquina de entretenimento e não tem um
compromisso maior com a população.
Você
tem pretensões de se tornar um imortal, tanto paraibano,
paulista ou brasileiro?
Tive dois grandes traumas na minha vida e são relacionados
com a Academia. Um foi na Academia paulista, quando eu estava
praticamente eleito e houve um empate. E o segundo foi na
Academia paraibana, quando fui praticamente empurrado para
participar de uma disputa que eu não queria e terminou sendo
confundida como uma luta política. A disputa numa vaga para a
Academia Paraibana de Letras me reduziu a um membro de um grupo
contra o outro. Coisa que não me satisfez. Eu tenho sido muito
assediado para ir para a Academia Paulista de Letras, mas tenho
resistido bravamente porque esse trauma não está resolvido
dentro de mim. E sobre a Academia Brasileira de Letras, apesar
de eu ter bons amigos por lá, eu não tenho nenhuma pretensão e
espero não vir a ter.
© Revista
Papangu, Natal- RN, outubro de 2007, n. 44. Caricatura de
Túlio Ratto
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