José Nêumanne

 

        A contista Rachel de Queiroz é contundente como o que, sutil e cortante qual gume de faca para picar fumo nas feiras livres do interior do Ceará. Ela descreve a vida sem disfarce, sem dourar a pílula, com a impressionante frieza de um assassino profissional. Seus personagens são doces e perversos, agem com a cabeça ou com os bofes, chutam lata e atazanam sempre, não deixando o próximo em paz nem quando desencarnam, pois voltam sempre à vida, depois de mortos, só para azucrinar os acomodados. A prosa curta da romancista é escorreita e crua, sem subterfúgios nem tergiversações: adjetivos são dispensados sem cerimônia, prevalecendo a força dos substantivos comuns, enfileirados com argúcia e sensibilidade.
          Os nomes próprios emergem de suas narrativas de impacto, que estalam na cabeça do leitor como bombinhas juninas, cada qual com sua missão sintática própria. Nada ali é gratuito ou demasiado – tudo tem função e lugar. Por mais fantástico que o conto possa parecer, ele ecoa familiar à atenção atada, infatigável, do leitor. Mesmo no minúsculo habitante da galáxia distante, recebendo a visita de curiosos gigantes terráqueos é possível encontrar a reação verossímil sem, porém, perda alguma da graça da surpresa, sem a qual a ficção, por melhor que fosse, se dissolveria. A narradora nunca se precipita, mas também não se atrasa à expectativa do leitor. Escritura e leitura andam lado a lado, como se passeassem de mãos dadas domingo no parque. Em cada frase que lhe surge, o leitor parece tropeçar no olho gaiato da autora, que se diverte, saltitante à sua frente, conduzindo-o por um labirinto que vai se iluminando à medida que ambos descortinam cada passagem do texto.
         A narradora não tem piedade do soldado ferido que se arrasta, solitário, no terreno inimigo, mas também não se diverte, sadicamente, com a ingenuidade da adolescente que excita a imaginação de um batalhão. Nem se gaba de seus múltiplos dotes, seja ao manter o leitor preso na armadilha de um texto que galopa pelo tempo, contando a saga de uma mansão, teto de várias gerações de uma família, seja ao segurá-lo por um fio na reprodução do depoimento na delegacia de um rotineiro caso de preconceito e agressão. Nos dedos de Rachel, uma corriqueira partida de sinuca ganha os contornos épicos de uma batalha de vida e de morte, com seus laivos de glória e de perdimento.
        Ei, você aí, do lado de fora da página, prepare-se para um percurso cúmplice e solitário sem os paparicos da lógica fácil da prosa de lantejoulas. A mão que o conduzirá por este labirinto nunca o guiará, mas lhe indicará todos os indícios de que viver é uma tarefa inútil, sórdida e sublime, merecedora de ser fruída com humildade, serenidade e inteligência. Vá, pois!

       

Leia o release da Editora José Olympio. Clique neste ícone

"[...] tento, com a maior insistência, embora com tão precário resultado (como se tornou evidente), incorporar a linguagem que falo e escuto no meu ambiente nativo à língua com que ganho a vida nas folhas impressas. Não que o faça por novidade, apenas por necessidade. Meu parente José de Alencar quase um século atrás vivia brigando por isso e fez escola."

 

 
© "O percurso cúmplice de viver", por José Nêumanne. Orelha do livro "A casa do morro branco", de Rachel de Queiroz. Edição da José OLympio Editora. Fevereiro de 2008.
imprimir este artigo | Indicar a página para amigos

José Neumanne Pinto, paraibano de Uiraúna, é jornalista, poeta, escritor e autor de O silêncio do delator, prêmio Senador José Ermírio de Moraes da Academia Brasileira de Letras, editorialista do Jornal da Tarde e comentarista da Rádio Jovem Pan e do Sistema Brasileiro de Televisão (SBT).

 

 

 

 

 

De acordo com a legislação em vigor, esta mensagem não pode ser considerada SPAM por possuir: identificação do remetente; descrição clara do conteúdo; e opção de remoção. Se você não deseja mais receber mensagens como estas, envie-nos novo e-mail, colocando em ASSUNTO, a palavra RETIRAR. Webdesigner: