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José Nêumanne

Mônica Rosenberg é herdeira e testemunha de uma das maiores
tragédias coletivas da história da humanidade – o holocausto
judeu durante a brutal ditadura nazista na Alemanha de Hitler.
Seu testemunho pungente, sensível e perspicaz é uma forma ao
mesmo tempo profunda e delicada de lidar com esse tipo de
memória. As lembranças são terríveis e quem não viveu os
momentos pelos quais ela e seus ancestrais passaram pode ter a
ilusão de que aquela experiência foi uma exceção à regra, uma
anomalia que precisa ser relegada ao esquecimento, mas o oblívio
nada purga nem redime. Os escritos deste livro impressionam pela
naturalidade com que a autora narra a brutalidade, a frieza e a
desumanidade dos algozes, sim, mas como algo que faz parte do
cotidiano: a dolorosa transformação da dor e do medo em rotina,
o convívio com o monstro que encurrala os inocentes no
escritório, em casa, na rua, no café e até mesmo no mais íntimo
de suas almas e de seus corações. Como outra judia, a filósofa
alemã Hannah Arendt, a narradora destes quadros do cotidiano de
antes do conflito, da guerra propriamente dita e de depois do
armistício traz para a vida corriqueira, que flui nas padarias,
nas salas de estar e nas platéias das casas de entretenimento, o
retrato em movimento da banalização do Mal e da persistência
silenciosa e quase imperceptível do Bem, que brota no meio do
sofrimento como uma flor no pântano, um quase invisível e
aparentemente indefeso arbusto que nasce e persevera nas fendas
dos monólitos. Este é um livro que deve ser lido em silêncio, em
homenagem aos heróis comuns, por ele retratados, que tombaram na
batalha contra os demônios que teimam em nos habitar, mas também
como uma homenagem festiva, quase uma libação, por quem
conseguiu se erguer e vir à luta para testemunhá-la. A memória
de cada batalha é a melhor forma de que dispomos para aprender
que a vida é bela e é feia, é suave e é cruel, pois é humana -
um apanágio de glórias e um abismo de perdição. O poeta Arthur
Rimbaud diz ter perdido a vida por delicadeza. Mônica no-la traz
de volta... delicadamente.

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