Clique na foto acima e ouça o poema-homenagem de Nêumanne para o Maestro SIVUCA!

Nada ha

                               José Nêumanne Pinto

A glória, para Sivuca,
não se reduz à fama
nem se conta em notas,
as moedas sempre falsas
a trocar de mão.
Pois a glória de Sivuca
tem nada a ver com fortuna.
A glória de Sivuca
é onça caetana
e é légua tirana,
uma mágoa insana.
Ela tem a ver é com a sorte,
com a sorte até pode ser,
mas não a sorte no jogo
e, sim, a sorte no amor.


Pois a glória é menina,
a glória é moça,
seu nome é severino
e é nome de mulher.
Pois é, a glória é mulher.
E também é melhor: 
é gáudio, é orgia, é folia,
carinho, estripulia.



Para aquele moço de Itabaiana,
a glória sabe o que é?
É entrar no Metropolitan Opera
pela porta da frente
e pelo poço da orquestra,
essa cacimba em si,
esse rio em fá,
esse mar sem mi,
esse povo sem dó,
esse sertão que é só:
a glória é pó, é pó e é pó.



A glória, para nosso mestre,
é uma banda inteira
e é alva, albina, é fina:
a glosa do verso torto,
e a tosa da rima acima,
é subir aos céus
na tocata e fuga de Bach
e descer aos infernos
num tema de Miles Davis.
E tudo num instrumento camponês,
uma sanfona sacana,
uma safena safada,
um fole de oito baixos
e tantos outros altos
a resfolegar e a respirar
o alento todo do cosmos,
o justo susto do caos. 


Pode até ser o violão de Pata Pata
por trás de Miriam Makeba,
mas de dentro da África inteira
em feiras de mangaio
em chinelos de rabicho,
num choro de cor e dor,
riso da alma,
e ônus do amor.

A mera prova sublime
de que a vida é música
e a morte é máscara:
uma canção de nanar nenê,
uma cantiga de amigo,
o Bolero de Ravel
na Praia do Jacaré
e o réquiem que Mozart fez
para o próprio enterro.
Ela vem no berro primevo
do guri expulso do ventre,
o morno ventre materno.




É ainda a república dos sonhos
e o império dos cinco sentidos:
a vista curta, o passo largo,
o tato esperto, o couro cru,
um gosto azedo
de pitomba verde
e os sons barrocos
dos carrilhões
das catedrais de Colônia,
Paris, Veneza e Patos.

 

A glória é a mãe do santo,
o porre, o pranto. 
A glória é um manto:
a sagrada lã
do profano clã.
É mais o forró forro
do banzo negro
e o frevo rasgado
de nós, cativos da paixão,
amém!

 


Leia e ouça o poema completo de Nêumanne em homenagem a  Sivuca. Clique neste ícone.Em back: fragmento em MP3, de "João e Maria", composição de Sivuca e Chico Buarque, com participação especial de Nara Leão.

 

Clique na marca para ter acesso à retrospectiva de seu encontro com Nêumanne.

No dia 19 de dezembro, às 16h, José Nêumanne receberá, em João Pessoa, a medalha Epitácio Pessoa, condecoração máxima da Assembléia Legislativa do Estado da Paraíba. 

Encontros com Nêumanne, contato:
Francisco Mendes, A Girafa Editora, Av. Angélica, 2503 - 12º andar - Conjunto 125 - Higienópolis - 01227-200 São Paulo SP - 11 3258 8878

De acordo com a legislação em vigor, esta mensagem não pode ser considerada SPAM por possuir: identificação do remetente; descrição clara do conteúdo; e opção de remoção. Se você não deseja mais receber mensagens como estas, envie-nos novo e-mail, colocando em ASSUNTO, a palavra RETIRAR. Webdesigner: estacao@neumanne.com