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O bom escritor se conhece pelo princípio da
obra. Meio caminho terá andado o autor para
ter o texto bem avaliado se lhe providenciar
um bom começo para cativar o olhar e, como
ensina Gabriel García Márquez, segurar o
fôlego do leitor. O Punho e a Renda, de
Edgard Telles Ribeiro, vence este desafio
com folgas. O narrador, diplomata noviço,
busca uma palavra para usar num relatório e,
de repente, como se baixasse o anjo da
anunciação, um vulto sai da penumbra e lhe
sopra o vocábulo, que cai como uma luva.
Assim é apresentado o protagonista da
história, que não é o narrador, mas seu
melhor colega de trabalho na juventude. Um
lance de mestre: narrador e leitor fisgados
pela mesma isca.
Mas evidentemente um boa pegada no início
não é suficiente para segurar uma história
capenga. É necessário encontrar um bom fim.
E não é que o dito romancista conseguiu um
fecho estupendo para sua narrativa?
Revelá-lo nesta resenha não será incorrer em
pecado mortal nem mesmo capital ou até
venal. O tema do livro é a longa noite dos
porões na ditadura militar brasileira e a
fábula que o encerra não descreve uma seção
de tortura nas masmorras nem a saga de
alguma mãe em busca de seu filho tresmalhado
nas celas clandestinas do sórdido Gulag
tupiniquim. Nada disso: o personagem da
narrativa em questão faz parte do rebanho
dos sobreviventes. E esta ficção de terror
não foi contada com gritos, sussurros nem
pontos de exclamação, mas em silêncio tenso
e sepulcral no meio de ruidoso tumulto.
Muito tempo depois de haver fugido de casa
para escapar dos esbirros que o foram
prender, ele encontra a irmã num ônibus
urbano e se olham sem uma palavra, um
sorriso ou um aceno – apenas o gesto do dedo
dele selando o lábio para evitar a bandeira
da emoção deslavada por parte dela. O medo
conteve a euforia e manteve represada a
surpresa.
O leitor arguto poderá argumentar que estas
duas cenas poderiam ter sido filmadas por
Costa-Gavras ou Michelangelo Antonioni. De
fato, são cinema em estado de extrema
pureza. Narrador e autor lecionam – ou
lecionaram – cinema na universidade. Mas nem
mesmo o mais ranheta dos críticos, depois de
lê-las, deixará de reconhecer que foram
lavradas na mais perfeita e canônica
arquitetura literária. Aí é que emerge outro
aspecto fundamental no bom romance e que
este aqui resenhado tem: um miolo à altura
da entrada e da saída do leitor de suas
páginas. Edgard Telles Ribeiro saiu-se bem
nesta empreitada. Sem querer ser mais
irreverente do que porventura possa se
propor um ocupante deste espaço fugaz – mas
sendo –, é o caso de deixar registrado que
ele escreve muito bem... como o faria um
competente profissional estrangeiro da
escrita. E muito além do amadorismo reinante
nestes trópicos mais enfadonhos do que
tristes.
Víboras de gravata. O Punho e a Renda
narra os bastidores da diplomacia brasileira
por ocasião de um dos mais sórdidos
episódios da história latino-americana, a
Operação Condor, esquema transnacional de
colaboração clandestina entre serviçais
civis e militares de direita dos regimes
autoritários vigentes na América do Sul nos
anos de 1970. Só isso pode dar ao leitor a
ideia da oportunidade oferecida a quem
enfrentou o desafio de escrever e a quem
aceita a gozosa tarefa de ler seu texto.
Trata-se de um roman-à-clef, aquele gênero
literário em que personagens reais com nomes
fictícios atuam em cenários históricos.
Chega a ser divertido procurar no entrecho
do livro figuras com traços de caráter muito
comuns
nos desvãos da política, que muda como as
nuvens do céu, e nos corredores do
Itamaraty, serpentário de silvos refinados e
doces venenos.
A saga do aventureiro que serviu à sanha da
direita e continuou a subir após algumas de
suas vítimas no passado conquistarem o poder
republicano chega a ser corriqueira, de tão
frequente. Para Telles Ribeiro contar a
história que contou, mesmo sendo passados 40
anos, teve de reunir ao talento narrativo
coragem cívica. Nada disso lhe faltou em
nenhum momento. E o recurso da chave, usado
na ficção para bois seguirem anônimos nos
currais, não o poupará de picadas de víboras
desmascaradas, pois estas ainda poderão lhe
prejudicar a carreira no Itamaraty, ainda
que já seja embaixador.
Em todo caso, o que menos importa neste caso
é saber quem na vida real corresponde aos
personagens tecidos com precisão de
joalheiro no texto que é longo, mas leve.
Importa mais é conhecer a natureza da
história e suas implicações na vida de cada
um, com todos os ingredientes bem misturados
de política, guerra, colunismo social,
espionagem e psicanálise.
Este livro, cujo título se refere menos aos
punhos de renda e mais à força bruta e à
corrupção, certamente elevará seu autor no
pódio dos maiores ficcionistas em língua
portuguesa. O exagero do emprego de tipos
itálicos na composição da mancha gráfica e o
mau gosto evidente do arame farpado usado na
capa para insinuar que o volume possa conter
o relato de algum sobrevivente de campos de
concentração nazista, em nada impedir-lhe-ão
a fortuna crítica que, com todos os méritos,
lhe está reservada.

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