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As duas maiores
frustrações de minha vida foram não ter visto Mané Garrincha
jogar e não ter estado em São Paulo nos anos 60 do século 20
para fazer parte das platéias da TV Record e acompanhar os
festivais de Música Popular Brasileira e as gravações do
Fino da
Bossa e de Esta noite se improvisa. Naquele tempo, naquele
palco, foram lançados para o estrelato Elis Regina, a maior
cantora brasileira de todos os tempos, e uma genial geração de
compositores - páreo para os sambistas cariocas (nem todos) dos
anos 30. A precariedade do cinema nacional não permitiu que meu
masoquismo me desse uma idéia visual das jogadas mirabolantes
com que o ponteiro direito do Botafogo demolia o sistema
defensivo de meu Flamengo. Mas o convívio com Walter Silva na
redação da Folha de S. Paulo, nos camarins do mesmo palco da
Record, só que então não mais na Consolação, mas na Augusta, e
em sua casa me propiciou o privilégio de reviver com emoção e
graça os anos de ouro em que desembarcaram no luminoso planeta
dos rouxinóis Geraldo Vandré, Chico Buarque, Caetano Veloso,
Nara Leão, Edu Lobo, Roberto Carlos e Milton Nascimento. A voz
grave e bonita do apresentador do Picape do Picapau me trazia de
volta cada detalhe daquela constelação, que acompanhava de uma
poltrona de televizinho em Campina Grande, na Paraíba. Com
Walter aprendi a amar São Paulo, que não era o túmulo do samba
do poetinha Vinicius nem um lugar ermo por onde a bossa nova não
havia passado - ensinava ele. Percebo que até hoje identifico na
Mooca, bairro onde ele nasceu, o espírito paulistano, muito mais
que no neon dos luminosos da Paulista e do Anhangabaú. Com
Walter aprendi que, embora continue sertanejo, paraibano e
carioca (Flamengo e Mangueira), também sou paulistano, ou seja,
cidadão do mundo. Walter era tudo o que se pretende negar que um
paulistano possa ser: amoroso, afetuoso, camarada, solidário,
gregário, amigo de verdade. Custa-me compreender que não mais
receberei em 25 de janeiro sua homenagem poética à cidade onde
nasceu, sempre viveu, foi feliz, padeceu e morreu e em cujo solo
agora está sepultado. Vou sentir falta de seus e-mails, do
orgulho que ele tinha da família, da generosidade com que
dedicou a vida às paixões que mantinham seu coração batendo: a
boa música, o Corinthians, o grupo amplo e eclético, mas seleto,
de amigos, um churrasco para beber chope, comer carne e bater
papo sobre o passado, o presente e a esperança. Elis Regina,
Plínio Marcos, Arley Pereira e JB Lemos agora têm sua boa
companhia nas farras celestiais.
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