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Elogio fúnebre a Walter Silva, por José Nêumanne

   
Foto do site de Walter Silva www.waltersilvapicapau.com

Foto do site de Walter Silva www.waltersilvapicapau.com


           As duas maiores frustrações de minha vida foram não ter visto Mané Garrincha jogar e não ter estado em São Paulo nos anos 60 do século 20 para fazer parte das platéias da TV Record e acompanhar os festivais de Música Popular Brasileira e as gravações do Fino da Bossa e de Esta noite se improvisa. Naquele tempo, naquele palco, foram lançados para o estrelato Elis Regina, a maior cantora brasileira de todos os tempos, e uma genial geração de compositores - páreo para os sambistas cariocas (nem todos) dos anos 30. A precariedade do cinema nacional não permitiu que meu masoquismo me desse uma idéia visual das jogadas mirabolantes com que o ponteiro direito do Botafogo demolia o sistema defensivo de meu Flamengo. Mas o convívio com Walter Silva na redação da Folha de S. Paulo, nos camarins do mesmo palco da Record, só que então não mais na Consolação, mas na Augusta, e em sua casa me propiciou o privilégio de reviver com emoção e graça os anos de ouro em que desembarcaram no luminoso planeta dos rouxinóis Geraldo Vandré, Chico Buarque, Caetano Veloso, Nara Leão, Edu Lobo, Roberto Carlos e Milton Nascimento. A voz grave e bonita do apresentador do Picape do Picapau me trazia de volta cada detalhe daquela constelação, que acompanhava de uma poltrona de televizinho em Campina Grande, na Paraíba. Com Walter aprendi a amar São Paulo, que não era o túmulo do samba do poetinha Vinicius nem um lugar ermo por onde a bossa nova não havia passado - ensinava ele. Percebo que até hoje identifico na Mooca, bairro onde ele nasceu, o espírito paulistano, muito mais que no neon dos luminosos da Paulista e do Anhangabaú. Com Walter aprendi que, embora continue sertanejo, paraibano e carioca (Flamengo e Mangueira), também sou paulistano, ou seja, cidadão do mundo. Walter era tudo o que se pretende negar que um paulistano possa ser: amoroso, afetuoso, camarada, solidário, gregário, amigo de verdade. Custa-me compreender que não mais receberei em 25 de janeiro sua homenagem poética à cidade onde nasceu, sempre viveu, foi feliz, padeceu e morreu e em cujo solo agora está sepultado. Vou sentir falta de seus e-mails, do orgulho que ele tinha da família, da generosidade com que dedicou a vida às paixões que mantinham seu coração batendo: a boa música, o Corinthians, o grupo amplo e eclético, mas seleto, de amigos, um churrasco para beber chope, comer carne e bater papo sobre o passado, o presente e a esperança. Elis Regina, Plínio Marcos, Arley Pereira e JB Lemos agora têm sua boa companhia nas farras celestiais.

 

Redação da Folha de S. Paulo, nos Campos Elíseos: de pé da esquerda para a direita: Nêumanne, Adilson Laranjeira, Waltinho, Walter Silva Picapau, Dailor Varela e Carlos Eduardo. JB Lemos está sentado com Rodrigo no colo. As crianças são filhas de Walter.

 

 Demais fotos desta edição em http://www.waltersilvapicapau.com/ , site de Walter Silva

 

A missa de 7º dia por Walter Silva, será na 5ª feira, dia 5, às 18h30m na Paróquia N.Sra. Aparecida, na Av. Ibirapuera, (Lgo de Moema)

 
 

 

 

 

 

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