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A primeira vez que vi Zé Rodrix na minha vida foi em
1967 na Rua Rui Barbosa, no centro de Campina Grande, Paraíba, se
bem que ainda não pessoalmente, mas, sim, na tela em preto e branco
do televisor de casa, pela qual acompanhava com fanatismo os
festivais de Música Popular Brasileira. Então, ele fazia parte do
Momento 4uatro, que acompanhou Edu Lobo e Marília Medalha em
Ponteio, a canção de Edu e José Carlos Capinam que venceu o III
Festival de MPB, da Record. Depois, no começo dos anos 70, quando me
mudei para sua cidade natal, o Rio de Janeiro do Flamengo e da
Mangueira, aprendi, cantando com ele, que “a palavra já morreu”,
refrão de um sucesso do Som Imaginário. O conjunto (como se chamavam
as bandas à época) acompanhava Gal Costa num show
em São Paulo quando, enfim, nos conhecemos pessoalmente. Fiel a
seu espírito de revolucionário folgazão, no meio do espetáculo
improvisava um inesperado solo de máquina de escrever. Um leitor,
que não havia gostado nada daquilo nem muito menos de meu elogio ao
desempenho dos artistas, impresso na Folha Ilustrada, da
Folha de S. Paulo, me telefonou para dizer que o espetáculo era
tão ruim que um dos acompanhantes da cantora baiana deixava de tocar
para escrever uma carta. Como o Brasil inteiro, aplaudi Elis Regina
cantando Casa no campo, composição dele e de seu maior amigo, o
mineiro Tavito, e batia palmas ao compasso da salsa no refrão de
Soy latino-americano. Mas só nos apertaríamos as mãos graças à
internet quando ele voltou a compor, ao considerar encerrada sua
temporada de publicitário, na qual havia encantado o Brasil (e eu
junto) com um longo jingle de um Chevrolet. Passamos a
frequentar aos sábados, a musa Júlia sempre ao lado dele, as
livrarias da vida - a Azteca, nas Perdizes, a Boa Vista, na Faria
Lima, e, finalmente, a da Vila, na Vila Madalena. Encantava a roda
formada pelo romancista Humberto Mariotti, por Aquiles Reis, do
MPB4, e por seu ídolo, o poeta Mário Chamie, contando casos do tempo
da luta armada, da qual participara e que lhe servira de definitiva
vacina contra quaisquer tentações totalitárias e estatizantes. De
volta à música pela internet, fazendo sucesso na literatura como
autor de uma trilogia de romances sobre a construção do templo de
Jerusalém, o Zé da Roda, como eu o chamava na livraria (sendo por
ele chamado de Zé da Neuma), se havia tornado um inimigo figadal do
financiamento público de obras de arte, por achar, com razão, que
esta é a pior forma que os autoritários encontraram para abastardar
a cultura. Cultor da canção, como autor ou exegeta, pregava aos
quatro cantos que esta sua forma capsular de expressão estética
tinha mais valor que livros, quadros, concertos, filmes e peças
teatrais, exatamente por ser completa em sua forma sintética de
comunicação. Solidário por vocação, Zé compôs sozinho e em parcerias
e também cantou em bandos na condição de adolescente permanente:
Joelho de Porco, com o sócio Tico Terpins, e, desde sempre, o trio
de rock rural Sá, Rodrix e Guarabyra, cuja temporada de shows
só foi interrompida pela visita da Indesejável das Gentes em seu
refúgio no Sumaré, onde foi golpeado por um enfarte fulminante, ao
lado de Júlia, como passou todos os dias dos últimos anos de sua
vida. O amigo generoso e atento continuará nos provocando e
incentivando onde for que nos encontrarmos. O artista talentoso e
gregário deixou sementes de canto na filha mais velha, Marya, e na
caçula, Bárbara. Mas ele sempre fará falta, ao encerrar, desta forma
trágica, um ano de perdas, que decepou de minha vida as companhias
de Toinho Alves (do Quinteto Violado), Walter Santos, J. B. Lemos,
Tereza Sousa e Walter Silva Picapau. Ao lado deles, na certa, ele
agora tem um encontro marcado com um rebanho de carneiros solenes
pastando nos jardins do céu. |